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Japão de pássaros e trigos

Flagrei-me pensando em uma coisa. E só de pensar nas coisas, cismo acreditado no verso de Arnaldo Antunes: “As coisas não têm paz”.


Vou além: pensar as coisas é que não tem paz! Que nem tudo é oito ou oitenta, e que entre oito e oitenta, há catorze. Ou “quatorze”?


Vê que não se trata de coisas muito miúdas, como saber se “catorze” e “quatorze” são dois significantes adequados para o mesmo significado; ou de maiores coisas como a de se saber ter sido Jesus o único filho de Deus – e assim ignorar se outros não o foram, a exemplo de Maomé.

Pensar na finitude do universo, então!: pensamento perde as beiras, e a gente também, se não para de pensar.


Essas coisas que a gente pega para pensar, e nelas se demora muito pensando, tiram um bocado de paz e tempo da gente, até quando a gente decide parar de pensar – como se essa decisão fosse possível – ou o cansaço ou o acaso interrompem o pensamento caminhante na mente da gente.

Outros assuntos, muitas vezes despercebidos, no repente encorpam importância de atenção e se põem graúdos no pensamento, a ponto de não sair de nós sem arrumarmos jeito e tempo de o dar cabo. Eis um deles, que foi um pensamento tido meu.

Eu andava pelas bandas da Fazenda do Sobrado, a mais antiga de Carmópolis de Minas, e o pensamento de uma coisa me consumiu demorado.

Foto fazenda do Sobrado - Viação Cipó

Se antes daquela casa, debaixo dela o chão era pastado, seco, surrado...? E mais pensei mesmo foi no nome Japão, que era de Carmópolis o primeiro ao lugar dado: teria sido mesmo dado pelo brado de entusiasmo dos bandeirantes ao aclamarem “Já há pão!” à terra cultivável então encontrada no caminho de suas empreitadas para o oeste em busca de ouro, ou, por outro lado, seria o nome dos pássaros que ali sobrevoavam, de nome originário tupi “iapuan”? Eis a questão.


De muito pensar, principiei por tomar na imaginação uma caderneta inventada. Eu a encontrei nos deixados de meu finado avô, que de algum de seus avós teria sido. E que ali se registrava escrito:

Caminhavam feito peregrinos, esperançosos, em busca de uma espécie de deus — nem por todos compreendido como deus — chamado destino.

Seguimos todos, naturalmente, por cumprimento de um destino. Andavam, porém, à deriva, cumprindo um destino de espera.

Caminhavam à espera. De quê? Esperavam pela terra. Por êxodo ou por exílio? Nem por um nem por outro. Pisavam uma terra que se tornava mais movediça a cada passo, e parecia-lhes que uma boca de abismo se lhe abria aos pés a cada dia no percurso daquele descaminho.

Se seus pés já tateavam terra, para que em mais terras haveriam de se dar?

Rumavam à terra da descoberta, assim à deriva, assim desbravando o desconhecido, assim inevitáveis de um assombro medonho. Onde haveria Deus de os dar o ordenamento de chegar?

A terra da descoberta seria uma revelação antes do tempo revelada. A descoberta era uma manifestação de milagre, por impossível e sonhada. Não sobre a terra se desnudaria a descoberta, mas sobre o cio dela.

O cio da terra urgia em suas mãos. Por elas, haveriam de engravidar o ventre vivo do chão, para dele ver mover o organismo do mundo e se fazerem parir o milho e o trigo. Haveriam de ver do chão emergidas espigas de milho e colmos de trigo.

Se pelo meio do caminho cumprisse o encontro de um pé de milho, já haveria broas; se trigo, já haveria pães.

Seriam de meu algum avô um deles. Queixava-se de farta fome, que lhe doía mais dolorida que as bolhas nos dedos e sola dos pés.

O chão era duro e, castigado de sol, zangava os pés dos andantes como sobre um rio de magma correndo subterrâneo imediatamente à superfície do chão.

Vinha do chão o ardor dos pés, e de sobre o chão o ar árduo de que nutriam sufocadas suas respirações. Caminhavam, e algum meu avô entre eles sofria a comunhão dos sofrimentos.

Tanta terra andada, fora de conta, e ainda sentiam haver mais muita ainda terra a andar. A esperança dos pés andejos não minguava. Esperançavam que a qualquer momento o chão pedregoso e duro iria se amolecer e afagar-lhes as solas surradas.

A terra esperada se cumpriria, tão afável e ciosa, e nela encontrariam o ponto de plantar, em um buraco se abrindo solene feito um útero ansioso pela semente.

Para a essas não prometidas mas esperançadas terras, quantos mais matos lhe teriam de arranhar as peles das pernas, feito arames farpados de cercas de tapume ainda inexistentes?

O caminho era penitente. Entre carmas e mais carmas, socorreu-se em misericórdias muitas, rememorando as Vinhas do Senhor, e meio a todos, bradou exclamado o algum pai de meu algum avô: “— Virgem do Carmelo, de flores fazei nosso andor, e aproximai seu fim na graça de nossos sonhos!”


Então, o matagal se abriu como o mar; e por muitos céus se alargou incomum o mais encantado dos horizontes. Os pássaros conhecidos por “iapuan” ficaram mais visíveis e suas cores abusavam a beleza de todos os campos de visão.

Ao contrário do que pensavam os descendentes dos sertanistas, ninguém nada bradou senão — Amém!

Por trás de uma nuvem puramente branca, atravessou Nossa Senhora do Carmo, atendendo ao clamor dos pedintes caminhantes.

A Virgem é quem exclamou com candura e alívio: “— Sentai-vos no chão, porque nesta terra fértil já não há mais aridez. Encostai vossas mãos sobre ela, porque o tato molhado da terra aguarda a secura de vossas mãos.”

O registro dessas palavras, em papel muito amarelado pelo tempo, eu mesmo encontrei num baú de embaúba em que se ajuntaram por séculos os segredos das gerações que antecederam o escritor dos fatos, o meu avô.

Os meus olhos não se detiveram à luz da caderneta velha, e derramaram milágrimas. Meus pensamentos começaram a apaziguar-se. Prossegui o desfecho da leitura, ainda ouvindo a voz sentenciosa da Senhora do Carmelo:

“— Sobre vossas mãos cairão sementes trazidas pelos pássaros iapuans; vós ireis acariciar a terra com as palmas plenas de sementes. E, por isso, eu vos direi:

“Já há pão!”


No derradeiro “Já há pão” das anotações, eu percebi o engenho que me foi imposto de dar fim à narrativa cuja autoria eu atribuí ao meu avô, que se não às história desse um fim, jamais o daria ao meu pensamento.


Certo é que tudo não seja para sempre, senão que pensar as coisas nunca tenha paz! “As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz.”


Assim, há “catorze” e há “quatorze”; e um dia nossos deuses conviverão com muitos mais de únicos filhos.


Nossa mente será tão alargada quanto o espaço infinito do universo.


E para a manjedoura de Carmópolis, terão por Japão havido pássaros e trigos.


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