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Pará dos Vilelas: o ambiente de Sarapalha


"Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito para gente deitar no chão e se acabar!!!..."


Assim termina o conto Sarapalha do nosso saudoso Guimarães Rosa no seu livro SAGARANA. Foi no arraial do Pará dos Vilelas que aconteceu a história narrada por ele. Em certa época, seus habitantes foram infectados pelo mosquito da malária, causando grande sofrimento a todos. E foi no calor da febre que Primo Ribeiro e Primo Argemiro passam a limpo suas memórias. Primo Ribeiro relembra Luísa, sua mulher, que fugiu com outro. Mágoa eterna, incompreensão que devastou sua alma. Por quê?... Ele repete a pergunta que nunca se calou. Primo Argemiro, que viera passar uma temporada com o primo, acabou transformando a visita temporária em definitiva após o acontecido, ali ficou com o primo, amigo, irmão, companheiro, na tristeza, na saúde e na doença. Mas o segredo que carregava pela vida afora lhe atazanava a alma. E, num rompante, agora que sente que o fim se aproxima, revela ao primo: “eu.... eu também gostei dela, primo. Mas respeitei sempre… respeitei o senhor, a sua casa…” Primo Ribeiro não perdoa, fora picado pela cobra da traição. Expulsou de sua casa o primo Argemiro, que passou a vagar sozinho, sem ter para onde ir. Não que isso importasse mais, estava num lugar bonito prá deitar no chão e se acabar.


E para nós, a leitura desse conto nos lembra e nos conforta por termos um lugar bonito para se acabar, mas fica uma incômoda questão: o que fazer com os segredos que habitam o recôndito de nossas almas, aqueles que não ousamos confessar nem a nós mesmos, mas que nos assombram e, por vezes, se tornam maiores que nós mesmos...


Mas de volta a Guimarães, médico, diplomata, escritor, novelista, romancista, contista, considerado por muitos o maior escritor brasileiro do século XX e um dos maiores de todos os tempos, atuou como médico no município de Itaguara por quase dois anos, onde inclusive nasceu sua filha Vilma Guimarães, que posteriormente seguiu os passos do pai, como escritora. O povoado do Pará foi a menina dos olhos do escritor. Dali surgiram muitas inspirações para compor seus personagens, contos e histórias.



O povoado chamado Pará dos Vilelas, foi assim denominado em função da tradicional família Vilela, residente nas imediações do Campo Grande, que doou um amplo terreno para a construção da praça e da capela. A capela, construída em 1754, recebeu o nome de Nossa Sra. da Conceição, padroeira local, e hoje se encontra tombada pelo patrimônio histórico.


A comunidade de Pará dos Vilelas é mais antiga que as cidades de Cláudio, Itaguara e Carmópolis. Juntamente com Bonfim, está dentre as localidades mais antigas de Minas Gerais. O local era ponto de parada de tropeiros e boiadeiros, havia muitos moradores e fartura de escravos. Porém, a maleita afugentou passageiros e habitantes locais. Alguns voltaram, mas o medo de novo surto era constante.


Em 1996, uma bela imagem de Nossa Sra. do Rosário que se encontrava nesta capela foi roubada. Este fato deixou os habitantes locais muito tristes e desde então o bispo da diocese de Oliveira e o pároco itaguarense, nossos tão queridos Dom Miguel e Padre Yuri Lamounier, não pouparam esforços em busca da Santa. No final do ano passado, após vinte e seis anos, a imagem foi encontrada em São Paulo, por meio da operação “Santo Roubado Não Faz Milagre”, instituída pelo Ministério Público de Minas Gerais.



Com muita alegria a imagem voltou ao local pelas mãos do Bispo e do Padre Yuri, com sinos tocando, missa e a presença do grupo de congado da cidade. O povoado ficou em festa, a Santa voltou para casa, mas apenas por pouco tempo. Por motivos de segurança está debaixo de sete chaves, até que haja um lugar seguro para sua exposição.


A obra de restauração da Capela de Nossa Senhora da Conceição do Pará dos Vilelas ocorreu entre os meses de julho de 2021 e novembro de 2022, por meio de uma parceria entre a Paróquia de Nossa Dores das Dores e a Prefeitura de Itaguara.


Segundo o nosso Padre Yuri, a restauração do retábulo (altar-mor) foi feita pela empresa Átrio Restaurações de São João Del Rei. Infelizmente poucas características originais foram encontradas na capela, em função de intervenções anteriores que descaracterizaram a pintura original, impossibilitando que este resgate fosse feito na atual restauração. Padre Yuri ainda nos conta que os restauradores optaram por utilizar cores que se aproximassem ao máximo das originais da capela. De original mesmo foi encontrada apenas uma pintura floral no sacrário. Além desse restauro do altar, foi feita uma reforma no telhado, nas portas e janelas. Para a pintura no interior da capela, os restauradores optaram por utilizar a técnica da caiação, processo utilizado no período em que ela foi construída. As muralhas de pedra, o adro e o cemitério ao lado da capela continuam intactos.


O povoado ainda conta com um enorme pontilhão sobre o Rio Pará, hoje desativado, mas que permanece como importante obra arquitetônica do distrito, com tendências do Art Decó. Este pequeno povoado, tão rico em histórias, se localiza na estrada MG 260, próximo à cidade de Cláudio.


O lugar que serviu de palco para Sarapalha e outros contos, além da linda capela, ainda conta com ótimas trilhas para caminhadas, passeios de Jeep e UTVs (Pedra do Calhau), cachoeiras e o lindo rio Pará, onde podemos dar boas voltas de canoas ou barcos. Há pouco tempo, inclusive, o simpático casal Geraldo Alexandre (Madeireira João Crente ) e Adriana Penido, em um passeio pelo rio, encontraram uma antiga canoa, que possivelmente foi talhada por índios. A peça foi doada ao museu Sagarana em Itaguara e o achado foi comunicado ao Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Uma grande contribuição histórica e arqueológica a partir de uma aventura pela região que tanto agradava Guimarães.



Então, que tal se adentrar por terras tão lindas, se aventurar, se divertir, deitar no chão e descobrir seus segredos?


Isto é acontecência....

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