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Lembranças da Semana Santa em Itaguara


Quero nesse artigo discorrer sobre minhas lembranças infantis e jovens da semana santa em Itaguara. Tenho saudades de como eram os festejos, em uma época em que a fé era mais intensa, fervorosa, e vivíamos um tempo de maior leveza, simplicidade e pureza. Como sabemos os festejos iniciam no domingo de ramos e finalizam no domingo de páscoa. É um período de orações, reflexões, penitências, enfim crescimento espiritual.


Quero voltar no tempo e resgatar fatos que como dizem, não voltam mais, e dos quais ficaram grandes saudades.. Saudades da época do ano em que os moradores da zona rural se aprontavam para vir à cidade apreciar a festa. Festa esta que se concentrava em orações, procissões, missas, jejuns, confissões, tempo de expurgar o mal e renovar o bem. Eram semanas de organização que consistiam em muito trabalho; fazer biscoitos no forno à lenha, matar porco, confeccionar roupas, adquirir sapatos....sim, estamos falando do tempo que não existiam carros, estradas, luz elétrica.


Toda esta ¨coiseira ¨ era arrumada nos carros de boi e as famílias aproveitavam a fresca da tarde pra partirem rumo à cidade, aonde chegavam já à noite, aproveitando a luz da lua cheia, sempre poderosa nesta época do ano, acomodavam-se em casas próprias, de parentes ou alugadas para a ocasião. Clarear os pés sujos de terra e acomodá-los nos sapatos era missão quase impossível, ainda depois acompanhar as procissões, só mesmo muita devoção! As crianças, coitadas..., após dias de preparo e empolgação ficavam exaustas e com os nervos à flor da pele. Almejavam por uma cama mais do que brincar ou ganhar um refrigerante Crush , Grapette ou Fanta.


Já as mocinhas suportavam os sapatos apertados e depois das atividades religiosas, costumavam ficar um pouco nos alpendres vendo os rapazes passar, elegantes, com suas melhores roupas, botinas limpas e chapéus de palha . Às vezes, acontecia de ¨rolar¨ um flert que se prolongava por toda semana e muito comumente amadurecia no sábado de aleluia. Mas sempre debaixo dos olhos preocupados e atentos das mães, pais e irmãos. Se fluísse, o próximo ano prometia um desenrolar mais emocionante que poderia até terminar em casório.


A Sexta-feira Santa era sagrada. Dia de jejum, orações, penitências, recolhimento total. A noite era a hora da procissão do Senhor. Verônica, com sua voz estridente, melancólica, muitas vezes desafinada, mas com muito fervor, anunciava que o homem que seria crucificado era o verdadeiro Cristo. A matraca percorria as filas da procissão substituindo o badalo dos sinos. Por fim, a banda de música Nossa Sra das Dores, tradicional e uma das mais antigas instituições da cidade, inicia sua música de mais profundo pesar e tristeza. Seus acordes tocam fundo o coração. É de uma beleza tão grande que chega a nos fazer chorar. Mas esta história merece um capítulo a parte, deixa pra outra vez.


Sexta-feira também era dia de buscar o leite nas fazendas. Todo o leite era doado e as estradas ficavam cheias de gente para buscar o precioso alimento. Conta-se que um senhor aqui da região estava indo buscar o produto também, mas era para vendê-lo no mercadinho. Ao sair de casa, passando por um trilho a caminho de seu veículo, tomou um tapa na cara que não se sabe de onde veio. Desistiu da empreitada, nunca mais quis buscar o leite doado. Disse que foi coisa do ¨demo¨.

O certo é, é que as coisas mudaram muito. Hoje a população rural é muito pequena, quase todos vieram pra cidade estudar, trabalhar, buscar novas oportunidades e melhoria de vida.


As estradas estão bem pavimentadas, quase todos tem seus veículos próprios (motos, carros..) e podem se deslocar com facilidade e rapidez. O celular virou o meio de comunicação mais veiculado na terra, tudo ou quase tudo se resolve em poucos minutos. Aquelas missas demoradas com sermões que duravam um século, são mais rápidas e objetivas. As procissões intermináveis de horas a fio, com duas fileiras, dão lugar a quatro ou mais fileiras, que correm pelas ruas feito cobras apressadas. Bares que nem abriam na Sexta-feira da Paixão, hoje mal fecham a porta quando o Santíssimo passa. Todo mundo tem pressa.


A procissão passa lépida, a matraca bate, a banda continua tocando lindamente os mesmos acordes tristes, Verônica canta, a procissão termina, as velas apagam, o sermão é tocante, a cerimônia acaba, o povo dispersa, os bares lotam....


A grande expectativa agora é para o Sábado de Aleluia, sem pais ou irmãos de olho nas mocinhas da cidade.


Bons tempos aqueles, bons tempos agora. Quem viveu, viveu, quem não viveu, não viverá.

Parafraseando Dickens, ¨era o melhor dos tempos; era o pior dos tempos¨.


Isto é acontecência!

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