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Sem eira, nem beira e muito menos tribeira!

Você já ouviu a expressão “Sem eira e nem beira”?  Em Minas Gerais é comumente usada desde os primórdios do seu povoamento. Não poderia ser diferente, já que o seu significado está ligado intrinsicamente às nossas origens portuguesas. A expressão tem como função explicar que o indivíduo não é detentor de posses materiais, assim “sem eira e nem beira”.  O uso da expressão para tal explicação não é de todo errado.


Fé e Café na Fazenda Morro Vermelho. Crédito: Márcio Carvalho

O significado primaz da palavra eira tem origem no latim- area- área, pedaço de terra.  Trazido de Portugal, o termo eira, tanto aqui como acolá é um lugar lajeado, uma área plana de terra batida, pedra e, posteriormente cimento, utilizada para secar, malhar e peneirar os cereais e grãos, separando as cascas e palhas dos alimentos. Logo, a eira precisa da beira- uma proteção mais alta para proteger os grãos, cereais e demais alimentos para que não voem ao vento e a colheita se perca. Assim, as fazendas, sítios, chácaras e quintas que não tivessem esta área, laje, a eira com a beira, eram propriedades rurais de indivíduos sem recursos materiais e que nada produziam, sendo assim, paupérrimos. A expressão, na região do Alentejo, em Portugal, era ainda mais sagaz e dizia “sem eira e nem beira, nem ramo de figueira”.


Como toda expressão utilizada veementemente torna-se um ditado popular e por aqui foi adaptado, empregado para explicar, os prolongamentos dos telhados nasconstruções das casas de morar coloniais. Como dizem “que uma mentira contada muitas vezes vira verdade”, assim foi com citada expressão “sem eira e nem beira”, que ganhou ainda a tribeira. Os indivíduos abastados faziam questão de construir seus telhados com alguns prolongamentos, chamados popularmente de eira, beira e tribeira, constituídos por três telhas.


Entretanto, os indivíduos com posses reduzidas construíam apenas a tribeira, ou seja, uma telha para o prolongamento usual do telhado. Daí as casas de morar “sem beira e nem eira” pertenciam a indivíduos sem posses materiais. Na arquitetura, de fato, existe apenas a beira.  O dito pelo não dito, prevaleceu o ditado. Mas se faz necessário o conhecimento do significado correto da expressão.


Ao realizar o livro Fazendas Mineiras- História, Cultura e Economia- Região Centro-Oeste, com o fotógrafo Márcio Carvalho, lançado em outubro de 2023, a expressão veio à tona novamente, já que muitas das propriedades rurais visitadas e retratadas na publicação possuem a eira, beira e a tribeira. Sejam como telhados ouáreas planas para secar e limpar os grãos e cereais. Depois de conhecer o significado correto da expressão, o prefiro, pois denota toda a riqueza que a região possuía e possui.


A região Centro-Oeste mineira foi considerada o “celeiro de Minas” justamente por abastecer a região aurífera de alimentos que eram, literalmente, pagos “a peso de ouro”. Muitos portugueses desejosos do enriquecimento proporcionado pela mineração de ouro, vieram para Minas Gerais. O sonho do eldorado não foi tão dourado como esperavam. O mineral foi encontrado em pequena quantidade, muito aquém das atuais cidades de Ouro Preto e Mariana. Logo, estes portugueses perceberam a necessidade de alimentos e iniciaram a criação de “gado vacum”- solto nas margens dos rios da região, para a produção de carne, leite para o queijo e o plantio de cereais, como o milho.


Logo, estes primeiros habitantes da região trataram de pedir à Coroa Portuguesa suas cartas de sesmarias- concessão de lotes de terra concedidos pela Coroa Portuguesa, que carecia de povoamento. As fazendas foram surgindo e as construções modestas davam lugar às casas de morar, erguidas nos mais nobres padrões portugueses que a riqueza podia pagar na precariedade da colônia, que se estendia para a capitania de Minas Gerais.


Ainda hoje é notória a presença das eiras, do lado ou na frente das casas de morar, permitindo que o fazendeiro pudesse ver, por meio das grandes e numerosas janelas(que merecerá futuramente um relato por aqui), tudo que acontecia em sua propriedade. Fosse no curral, na eira, comumente chamada de terreiro, no paiol e no moinho de moer fubá- o “munho d’água”.


Secagem de Café na Fazenda Santa Maria do Muzambinho. Crédito: Márcio Carvalho

Com o tempo, a região prosperou se adaptou ao plantio de café, o clima e a terra favoreceram a cultura do grão. A eira segue cumprindo sua função- secar o cafépara que depois seja limpo em máquinas modernas. O paiol deu lugar ao silo. Os tropeiros e o carros de bois utilizados no transporte foram aposentados, para o trem e, depois, o caminhão fazerem o seu trabalho.  Muitas mudanças ocorreram, mas sem dúvida, o sentimento que traz à memória a ruralidade das fazendas mineiras do Centro-Oeste transcende toda a mineiridade que persiste na diversidade.


Ana Maria é historiadora, especialista em Projetos Socioculturais, Mestra e Doutoranda em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável- UFMG.

 

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