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Reis magos e as folias de minas

Inaugurando este espaço de trocas que vamos construir aqui, quero dividir uma passagem, diante, inclusive, destes últimos acontecimentos radicais e de depredação de diversos bens culturais em Brasília, em ataque a nossa democracia e a intolerância a algumas matrizes religiosas de nossa cultura.

Foto: Renato Araujo/Arquivo/Agência Brasil

Dias após saudar uma manifestação devocional reconhecida desde 2017 como Patrimônio Imaterial de Minas Gerais pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, no último dia 06 de janeiro, as Folias de Minas, me coloquei a pensar sobre estes “Reis Magos” e nos demais aspectos que integram este bem cultural.


As Folias reúnem saberes, formas de expressão e celebrações, com características regionais e indumentárias que variam de grupo para grupo. Configurando-se como importantes demonstrações da religiosidade católica, que ao longo dos séculos se tornaram elementos na construção do imaginário, identidade, e na memória social dos mineiros.


Compreendidas como uma manifestação cultural, as Folias estão associadas ao catolicismo popular, e são geralmente compostas por mestres, cantores, tocadores bandeireiros ou alferes, que realizam visitas às casas de devotos, compartilhando bênçãos e arrecadando donativos e oferendas para diversos fins. Como um dos principais elementos simbólicos das Folias têm-se as bandeiras, que carregam a representação dos santos de devoção. Em Minas Gerais, é muito marcante a presença da Folias de Reis, mas também para diversas outras devoções, como São Sebastião, Divino Espírito Santo, Meninos Jesus, Divino Pai eterno, dentre outros.


Comumente, os foliões e folias, como são chamados os devotos que compõem dos grupos de Folia, realizam procissões ao longo dos dias em que se festejam os Santos nos quais cada grupo se dedica. Esses grupos também se organizam a partir de “ritos como o giro ou jornada, encontros, festas e o cumprimento de promessas”, levando bênçãos, cantos de saudação e louvor, e as bandeiras até a casa dos demais devotos.


Para compreendermos o universo intangível, festivo e religioso onde as Folias se inserem, torna-se necessário buscarmos por suas referências históricas. No território brasileiro, um dos modos como se deu a materialização da fé foi por meio do culto e dos festejos dedicados aos santos de devoção, já que as festas religiosas se constituíram como um importante espaço de sociabilidade para a maior parte da população, sendo marcadas tanto pelo caráter sagrado quanto pelo profano, com músicas, danças, comidas e bebidas.


Com o passar do tempo, as festividades foram se aproximando cada vez mais do cotidiano das comunidades, transformando-se em um momento de celebração da vida e de interação social. Desenhadas desde o século XVIII, as festas dedicadas aos santos de devoção se intensificaram no longo dos séculos XIX e XX, e estão presentes ainda hoje, reforçando a perpetuação das tradições e a existência de fundamentos de respeito à fé e à fraternidade comunitária.


Entre as Folias que mais se destacam em Minas Gerais, está a Folia de Reis. A festividade remonta a passagem bíblica de Mateus, que conta a visita de alguns Magos a Jesus Cristo, no dia do seu nascimento. Tendo sido guiados pela estrela do oriente, os Magos encontraram a manjedoura onde se encontrava o Menino Jesus, e ali, lhe entregaram os presentes que haviam levado: ouro, mirra e incenso.


Retomando sobre o “Reis”, estes se deslocaram em distância e cultura longínquas, carregando consigo seus ritos, tradições, histórias, identidades e simbolismos, materializados em suas vestimentas, modos de vida e objetos, referenciados até mesmo nos presentes que seriam entregues ao Menino Deus.


“Reis” que professavam de outra fé, outra origem, naturalidade, contudo, desde o momento que receberam e, o mais interessante, perceberam a manifestação da Estrela de Belém, aceitaram por inteiro o novo ensejo. Estes “Reis”, sábios e magos, seguiram, alcançaram e reconheceram o que seria então a revelação da chegada do novo “Rei”, rei do amor, da paz, de salvação.


Assim, aproveito para celebrar o alcance deste espaço com vocês leitores, um convite que chegou como uma luz (assim como seguir uma estrela), para que possamos ter oportunidade de descrever outras maneiras de ver, sentir e expressar, experiências e experimentos, que envolvam a riqueza e diversidade de nossa cultura brasileira e de nossos patrimônios culturais.


O patrimônio cultural se apresenta sob diversas naturezas, tais como imateriais, materiais em bens móveis e imóveis, ferroviário, arqueológico, natural, e que apesar das divisões técnicas e conceituais são superadas pelo entendimento holístico e sistêmico do patrimônio de forma integral.


O patrimônio cultural imaterial se realiza em diversos campos, dentre eles: tradições e expressões orais; expressões artísticas; práticas sociais, danças, ofícios e saberes, lugares, rituais e atos festivos; conhecimentos e práticas relacionadas à natureza e ao universo e técnicas artesanais tradicionais.


Transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu meio ambiente, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade. Onde o atual sentido de Patrimônio Cultural está relacionado a um bem coletivo, um legado por meio dos quais um grupo social pode se reconhecer enquanto tal. Antes sinônimo de arte e erudição, a cultura agora transcende sua definição para o universo das práticas locais de simbolização e experimentação da realidade.


Neste sentido, contemporaneamente, a prospectiva do conceito de Patrimônio Cultural Imaterial é em direção ao futuro e não ao passado, com a insistente necessidade de “salvar do esquecimento” as referências para a construção da memória social. Visto que, de fato, a palavra de ordem é diversidade cultural e, mais do que salvar os bens culturais ou mais do que guardar os seus materiais, trata-se de criar condições para que estes bens e seus detentores se promovam no porvir.


Assim, reúno expectativa de verificarmos a importância pelas diferenças, com respeito, empatia, acolhimentos e reconhecimento. Se assemelhando aqueles “Reis”, que não só compartilharam a não exclusividade de suas práticas culturais, mas legitimaram que são possíveis outras formas de interpretar o mundo, de forma plural e abrangente em possibilidades do bem comum e de todos!



 

Marina Vilaça é mestre em Patrimônio Cultural, Paisagens e Cidadania, especialista em Patrimônio Cultural na Contemporaneidade, bacharel e licenciada em Geografia e Meio Ambiente. Analista ambiental, com experiência em projetos socioambientais, patrimônio cultural e avaliação de impacto. Atualmente é responsável técnica na empresa Culturas Ambientais Consultoria. culturasambientais@gmail.com / @culturasambientais

Escreve sobre Culturas e Patrimônio Cultural



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