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Os tempos das trupes circenses


Acervo pessoal - Soraya Lara


“O circo chegou na cidade era uma tarde de sonhos e eu corri até lá. Os artistas, eles se preparavam nos bastidores para começar o espetáculo, e eu entrei no meio deles e falei que eu queria ser trapezista ...” esta parte de um dos poemas de Antônio Bivar, recitada lindamente pela cantora Maria Betânia em um de seus álbuns, me remete ao tempo dos circos nas pequenas cidades.


Quando o circo chegava, era uma imensa alegria e em pouco tempo a trupe já desfilava pelas ruas fazendo acrobacias e palhaçadas como forma de convite para o público assistir aos espetáculos. As crianças que acompanhavam o desfile pelas ruas tinham os ingressos garantidos, estes eram marcas de carvão nas mãos, que nem podiam ser lavadas durante a semana para não correrem o risco de ficarem de fora da platéia...


Não era raro a criançada ficar beirando os arredores do circo pra ver os animais que naquela época ainda eram permitidos nos palcos. Tinham chipanzés, leões, cavalos, tigres, avestruzes , uma inclusive, que em certa vez, num momento de deslize, saiu correndo pelas ruas da nossa querida Itaguara, passando na frente da casa do saudoso Didi do Guinho e só parou na porta do Banco do Brasil, quando perplexa se deparou com sua imagem no vidro, onde pôde ser recolhida. Didi contava e ria muito deste caso .


Mas, voltando às crianças o certo é, é que as elas ficavam ansiosas com a estréia do espetáculo, e porque não dizer os adultos também... a diversão era para todos. Além das apresentações de palhaços, malabaristas, trapezistas, bailarinas, equilibristas, mágicos, tinham outras apresentações como eleger o moço mais bonito da cidade, a melhor dançarina e brincadeiras com a platéia que nem sempre eram de bom grado. Em uma dessas, o palhaço perguntou a um certo senhor o que ele tinha debaixo do seu chapéu, ele calvo que era, com a língua afiada, soltou-lhe um belo palavrão. E de uma outra leva, em um dos espetáculos, numa encenação do diabo e do lobisomem, um certo rapaz que infelizmente, a pouco passou pro outro lado, levou tanto susto quando por sob uma nuvem preta saiu um lobisomem ,que o mesmo caiu duro da arquibancada ao chão, ficando desmaiado por alguns minutos. Não se sabe se pelo tombo ou pelo susto.


De outra vez, me recordo de um acontecimento de pânico e solidariedade. A escola nos levou ao circo depois de ganharmos muito gentilmente ingressos para uma matinê. Uma grande amiga- irmã que com certeza há de se lembrar deste caso, sempre teve horror de chuvas, relâmpagos e trovoadas. Não é de acreditar que ao chegarmos no circo, o tempo fechou, nuvens escuras e relâmpagos tomaram conta do céu, um vento de arrepiar. O vento zunia e a lona do circo balançava como se fosse despencar. Esta menina enlouqueceu. Chorava e tremia como vara verde. Não teve outro jeito, como amiga inseparável, o recurso foi sair correndo com ela debaixo daquela chuva que só Deus dá. Desabaladas pelas ruas da cidade, molhadas como pintos , chegamos em casa mas perdemos o espetáculo. Mas ficou este caso pra lembrarmos e rirmos.

Além dos palhaços, outra atração era o atirador de facas que também levava a plateia ao delírio. Até fechávamos os olhos, que medo de errar... Poderia ser fatal. E o engolidor de fogo... Meu Deus, Como podiam fazer aquilo!


Os trapezistas eram outra loucura, se atiravam do alto e naquele tempo não havia tanta segurança. Acrobatas realizavam feitos de equilíbrio e coordenação motora, que com muita destreza desempenhavam figuras impressionantes. Não demorava e estávamos tentando desempenhar estas acrobacias no trapézio do parque, que sempre terminava com algum braço quebrado ou cortes na cabeça.


Outro momento muito esperado era o globo da morte. Se o circo era famoso, tinha que ter globo da morte . Este globo consiste em uma espécie de bola de aço onde motocicletas, com um número variado de motociclistas giram por dentro dela. Uma loucura.. Momento de pura tensão. Nossa Senhora!!!. Era muita adrenalina.


Entre uma e outra apresentação, sempre apareciam os palhaços, tirando gargalhadas e gargalhadas do público. E por entre as fileiras das arquibancadas não paravam de passar as mocinhas do circo vendendo suas guloseimas: balas, pirulitos, algodão doce e pipoca, levando as crianças ao delírio e esfolando o bolso dos pais.


As apresentações continuavam por aí a fora.


Enfim, com muita tristeza, o espetáculo ia chegando ao fim, nos deixando ansiosos por uma próxima vez.


Outro dia, eu muito saudosista, com a desculpa de levar uma linda e amada menina de quatro anos ao circo, fomos em BH, depois de muitos anos sem ver este tipo de espetáculo. Ao chegar, já me deparei com muitas mudanças. No pátio do estacionamento onde está o circo, pudemos ver carretas, caminhões e muitos trailers novos, modernos, da melhor qualidade. Na entrada, os cobradores fazem a leitura ótica dos bilhetes, já adquiridos via online.


Na entrada do circo , debaixo de uma lona muito nova ,colorida e bonita, vários stands vendendo água, refrigerantes, algodão doce, cachorro quente e outros..


O espetáculo começa com uma linda apresentação de dança por belas mulheres com um figurino digno de Las Vegas. Depois vieram os palhaços, o equilibrista que consegue se equilibrar em até oito skates, o jogador de chapéus , o trapezista ,as ilusionistas ( uma novidade, pois só tinha visto homens desempenhando esta arte), de repente um carro que se transforma num Transformer , linha de brinquedos que as crianças tanto conhecem e de repente... para aterrorizar os pequenos , surge o king Kong, de tamanho e visual tal qual do famoso filme que tanto já vimos e arrepiamos quando o imenso macaco pega Naomi Watts pelas mãos levando-a às alturas, nosso gorila pega uma linda protagonista que também vai até o alto. Como todo bom circo famoso, não pôde faltar o globo da morte. Desta vez com seis motociclistas, foi um show de arrepiar, mas por fim saíram ilesos.


E pra finalizar o espetáculo, um lindo show de águas dançantes promovido por inúmeros projetores coloridos, jorrando água verticalmente acompanhando o ritmo de várias músicas muito bem orquestradas.


Os palhaços fizeram suas últimas brincadeiras e apresentaram todos os participantes. Hora de ir embora, mas nas mãos da criançada, palitos de algodão doce e balões iluminados com luzinhas de led. No coração a lembrança do circo raiz de outrora. O de hoje, muito lindo também, agregado com um belo espetáculo tecnológico.


Pensei..pensei... ¨Quando cansei de olhar para o alto e fui olhar para as pessoas, só aí eu vi que estava sozinha¨..... Sonho...realidade. E é vida que segue , bem assim, vivendo e lembrando momentos tão preciosos da nossa infância...


Isto é acontecência!!!!

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