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O filho de mil homens ou a busca por pertencimento


Assisti ao filme O filho de mil homens (Netflix, 2025) e terminei com a sensação de estar chegando de uma viagem para dentro de mim. Faltava-me o fôlego não do caminho percorrido, mas do que se me falta para percorrer. Não tive outra ação a não ser voltar ao livro O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe (2011), que li em 2015, e rever as minhas notas e revisitar esta bela e sensível obra sobre a condição humana. Embora caminhem por linguagens distintas, ambos procuram iluminar o mesmo núcleo: a possibilidade de encontrar pertencimento mesmo quando a vida parece dizer o contrário. 


Não é meu interesse tratar sobre a adaptação, tampouco avaliá-la, mas compreendendo que há inúmeras variações possíveis nessa relação entre obra-fonte e derivada, destacar alguns elementos comuns. Em ambos percebe-se a densidade poética, filosófica e existencial da condição humana a partir de Crisóstomo, o “homem que era só metade” (p. 19), por chegar aos quarenta anos e assumir a tristeza de não ter um filho. O filme consegue traduzir bem este sentimento em gestos e, paradoxalmente, dá voz ao silêncio contemplativo daquele homem que entendia que “a esperança era uma coisa muda e feita para ser um pouco secreta” (p. 23). Esta é a primeira nota para nos fazer entender que o ser humano não nasce inteiro, nasce em falta, e a esperança trabalha por baixo, sem fazer alarde.


O amor é o fio que vai costurando os sonhos, ausências, sentimentos, palavras, silêncios, perdas, encontros, afinal, “amar era feito para ser uma demasia e uma maravilha” (p. 25). A experiência de amar/amor apresentada é sempre transbordar, sempre ultrapassar o que cabe, sempre arriscar, marcados pela fragilidade humana, o afeto e a busca por pertencimento. Dessa insistência, emerge uma convicção ética: “o amor era uma atitude, uma predisposição natural para se ser a favor de outrem. Isso é o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer se pensar, por outra pessoa” (p. 122). 


Vale destacar que, no filme, o amor se manifesta, do começo ao fim, por meio de uma fotografia extremamente sensível e uma estética sóbria: com os figurinos e a paleta de cores “esmaecidos” gerando uma atmosfera de tristeza, introspecção e desejo de conexão humana. Ao mesmo tempo, no reconhecimento entre Crisóstomo e Camilo há uma manifestação de ternura silenciosa (pouco comum no universo masculino) cuja paternidade emerge do gesto — o abraço demorado, o toque no ombro, o olhar que acolhe. “O toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro lado de cá da pele. Quem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra. E amar uma pessoa é o destino do mundo” (p. 135). 


A relação de Crisóstomo e Camilo, na narrativa, é explorada e apresentada como uma chave para compreender a incompletude humana, embora as demais personagens e seus vínculos busquem cumprir a mesma finalidade. O menino Camilo é o espelho da solidão de Crisóstomo – um órfão em busca de um rosto que o reconheça – e, ao mesmo tempo, a possibilidade de reconciliação do pescador com o próprio desejo de ser pai. Quando o filme os coloca sob o mesmo teto, não está só formando uma família improvável, mas propõe um caminho de encontrar as incompletudes. A paternidade, aqui, não nasce do sangue, mas da ousadia de assumir o outro como parte de si. “Os filhos, pensava ele, são modos de estender o corpo e aquilo a que se vai chamando alma” (p. 197). 


Não é possível entender o amor expresso nas duas obras sem deixar-se tocar pela brutalidade e a violência simbólica à qual são submetidas as personagens femininas e homossexuais. Seja pela mãe de Camilo, discriminada pela condição do nanismo e que morre ao dar à luz, seja por Isaura que assumia melancolicamente a dureza do mundo e a falta de um marido, ou mesmo Antonino, “o maricas”. “As raparigas tinham uma ferida que nunca curariam” (p. 48), “pensava sempre que o caminho da liberdade estava no casamento e no meio das pernas” (p. 51); “amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma” (p. 68), “um homem maricas não podia deixar de o ser e, para infelicidade de quantos o tivessem por perto, era inevitável que recolhesse dos corpos dos homens os sonhos, as fantasias com as quais, na verdade, a felicidade se cobria” (p. 108), são algumas das passagens que apresentam a violência de gênero e uma expressa expectativa de que as mulheres “consertem” sua vida pelo casamento.


Ao mostrar uma Isaura que pouco fala, mas cujo corpo carrega a memória de muitas dores, a obra denuncia o peso de uma socialização que ensina as mulheres a serem gratas por migalhas de afeto. E, ao mesmo tempo, ao colocá-la na mesma órbita de Crisóstomo e Camilo, a narrativa abre para ela também a possibilidade de uma nova forma de pertencer – menos baseada em dívida e submissão, mais em reconhecimento mútuo.


O filho de mil homens explora com delicadeza o tempo e a finitude. Crisóstomo é um homem de quarenta anos recortado num momento de balanço da vida: tempo demais já passou para que ele seja “jovem”, tempo de menos para que aceite simplesmente que “foi assim” e pronto. Isso se reflete no ritmo da montagem, com planos longos e pouco afeitos a viradas bruscas, fazendo o espectador colocar-se, com Crisóstomo, nessa busca de quem não é nem começo, nem fim, mas um meio caminho em que ainda é possível decidir algo importante. 


A paternidade/maternidade/filiação, tal como apresentado, não é só a nível biológico-reprodutivo, é pertencimento. É mais de alma do que de corpo. Essa é uma das lições mais belas do romance - nas suas duas versões - manifestando que o ato de cuidar não nasce da biologia, mas da capacidade de expandir o próprio ser, no afeto. “Todos nascemos filhos de mil pais e de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros” (p. 204). 


De fato, somos feitos dos outros, e pertencemos uns aos outros. Essa compreensão fraterna — quase mística — perpassa todo o romance e é sua chave interpretativa. As relações vão se entretecendo, indicando que a vida não é um projeto individual, mas um entrelaçado de afeto, história e um destino comum compartilhado. “Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós” (p. 205). 


Num mundo marcado por solidão urbana (segundo a OMS, 1 em cada 6 pessoas sofre de solidão, e os jovens são a parcela mais afetada da população), por vínculos descartáveis e por um ideal exaustivo de sucesso individual, ele propõe outra medida de realização: a capacidade de construir laços de cuidado. Em vez de histórias de “vencedores”, vemos pessoas comuns que carregam fracassos, traumas, culpas – e que, ainda assim, encontram uns nos outros um lugar possível de recomeço. Isso desafia tanto o discurso meritocrático (“cada um por si”) quanto certas idealizações de família perfeitinha: a família de O filho de mil homens é remendada, improvável, às vezes confusa – e justamente por isso profundamente humana.


Eu diria que O filho de mil homens é sobre a sobre a coragem de abrir a casa e a casa do coração, a coragem de abandonar as palavras para comunicar pela intensidade dos sentimentos, como um caminho possível para a felicidade. “Ser o que se pode é a felicidade. Pensou nisto a Isaura. Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser” (p. 86). 


*As páginas mencionadas no texto referem-se à edição de O filho de mil homens (Biblioteca Azul, 2016)




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