Manual de sobrevivência linguística numa sala de embarque
- Antônio de Paula Oliveira

- há 2 dias
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Sala de embarque é um lugar onde o tempo resolve tirar férias. O relógio anda, mas a sensação fica estacionada no saguão. O voo atrasa, o café esfria, o celular descarrega e a paciência vai ficando igual arroz requentado, grudento e sem graça. É ali, naquele território neutro, entre o ir e o ficar, que a gente começa a reparar nas pessoas, nas falas, nos gestos e, sobretudo, nas palavras. Foi nesse cenário, meio aeroporto, meio sala de espera de dentista, que ouvi a pergunta do menino:
— Mãe, o que é pé d'água?
A mãe respondeu com um sorriso manso.
— Pé d'água é quando chove muito, meu filho. Chuva forte.
O garoto fez cara de quem engoliu a explicação, mas não digeriu. Ficou quieto um tempo, mexendo o pé no chão, como quem cava um pensamento. Aí veio a segunda pergunta, dessas que não dão sossego:
— E pé de serra?
— Pé de serra é o começo da montanha ou o sopé da serra. Pode ser também o autêntico forró nordestino, mas isso falaremos no futuro — explicou a mãe, já prevendo confusão.
— Ah...
Esse "ah" veio atravessado, meio desconfiado, meio decepcionado.
— Juro que eu achava que pé de serra era aquele triturador malvado que corta a perna das pessoas que invadem a mata. Só de ouvir isso, mãe, já me dá medo.
A mãe riu. Riu aquele riso que mistura carinho, espanto e a constatação de que a língua portuguesa, no Brasil, não vem com bula.
— Onde foi que você ouviu essas coisas, menino?
— Na casa do vovô. Ele conta histórias legais... mas às vezes fico com medo.
Pronto, estava tudo explicado. Avô brasileiro é um contador de histórias. Onde o lobisomem mora na curva da estrada, a mula sem cabeça corre atrás de quem anda à noite, e o "pé de serra" ganha dentes e fome. Avô não ensina vocabulário, ensina sobrevivência imaginativa.
— Outro dia, a vovó falou para eu não mexer com as galinhas de pintinhos, porque elas ficam bravas que nem o monstro do pântano.
E ali, naquela sala de embarque, percebi que crescer no Brasil é aprender cedo que as palavras não obedecem às normativas, elas não se comportam. Elas não ficam quietas no dicionário. Aqui, saudade não é sentimento, ela é prosa, poesia e canção. Aqui "a saudade é mato que cresce desembestado". Dá em qualquer canto, invade terreno, toma conta da gente. E quando bate de repente, "é como uma tijolada bem no meio da testa", daquelas que deixam a gente tonto, lembrando de coisa que nem sabia que doía.
Enquanto isso, o voo continuava atrasado. Alguém puxou a primeira reclamação em bom tom: "isso é uma palhaçada". Uma senhora disse que tanta espera tinha "passado de todos os limites aceitáveis". Outro passageiro solta uma pérola que acabou descontraindo um pouco: "Uai... esse trem tá demorando demais da conta". A moça fala ao celular através de um cântico silábico: "a espera está arretada de grande".
E o menino, atento a tudo, absorvia aquele mosaico vivo de expressões. No Brasil, a gente "fica a ver navios", "fica com cara de paisagem"; a gente não cansa, fica "moída", quebrada, "só o pó da rabiola".
O garoto virou para a mãe:
— Mãe, por que o moço falou que isso tá uma palhaçada? Tem palhaço aqui?
A mãe respirou fundo outra vez.
— É jeito de falar, filho.
Jeito de falar é a explicação padrão do Brasil. Serve para tudo. Serve para justificar quando alguém "dá linha na pipa", quando "fulano foi para a casa do chapéu", e por aí vão os atalhos e tropeços do linguajar engraçado, debochado, relaxante, sem regras, mas que soa como um desabafo, ou apenas um atalho para uma frase grande.
O menino continuava atento. Olhava para cada boca como quem assiste a um filme sem legenda. Talvez estivesse tentando montar um mapa mental onde a língua não fosse cheia de armadilhas.
— Um dia, a avó disse que o cachorro bateu as botas.
A mãe se engasgou de rir.
— Bater as botas significa que ele morreu.
O menino arregalou os olhos.
Chamaram finalmente para o embarque. As pessoas se levantaram num susto coletivo, como se alguém tivesse gritado "é agora ou nunca".
O garoto pegou a mochila, tranquilo. Nenhum medo do avião, da altura, do céu. Medo mesmo ele tinha era das palavras.
Talvez seja isso que nos une. A gente tropeça na língua, ri do tropeço e segue viagem. Mesmo atrasados. Mesmo confusos. As pessoas seguem mantendo vivos os folclores populares.
Por aqui, aprendemos cedo. Sobreviver é entender que nem tudo é literal e que a vida, se não for levada com humor, vira um atraso tedioso, sem previsão de embarque. O essencial é que a linguagem pode traduzir as histórias, dar vida, sentido ou falta dele. O importante é que as expressões mais folclóricas nos fazem companhia, criam laços de afeto, constroem lastros invisíveis, viram abrigo nos dias de espera. São elas que nos ensinaram a ouvir o mundo com espanto e atenção, a perceber que a língua carrega mais do que o sentido: carrega memória, medo e doçura. E, no fundo, seguimos repetindo essas palavras não para explicar as coisas, mas para continuar perto de quem um dia nos ensinou a escutar a vida assim.
Antonio de Paula, jornalista.




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