Girassol: cultura e desenvolvimento no agronegóciobrasileiro
- Antônio de Paula Oliveira

- 21 de set. de 2025
- 4 min de leitura

Estudiosos, antropólogos e pesquisadores já cogitaram que o girassol pudesse ter origem no México, Canadá, Estados Unidos e até mesmo no Brasil. No entanto, descobertas recentes de arqueólogos no sítio de Santo Andrés, na região de Tabasco, no México, revelaram os vestígios mais antigos da planta: uma pequena semente carbonizada indicou que a domesticação do girassol ocorreu cerca de 1.200 anos antes dos registros mais antigos no leste dos Estados Unidos (Lentz et al., 2001).
Da ornamentação à produção agrícola
Na Europa, o girassol chegou por volta de 1510. Inicialmente cultivado apenas como planta ornamental, permaneceu enfeitando jardins por quase dois séculos. Somente no final do século XVIII passou a ser explorado para a extração de óleo comestível, produção de ração animal e uso na indústria de cosméticos.
No Brasil, o cultivo começou no século XIX com a chegada de colonizadores europeus ao Sul do país. Na época, era usado principalmente para o consumo das sementes torradas e para o preparo de chá com efeito estimulante.
Com o tempo, deixou de ser apenas ornamental e passou a ser visto como uma cultura com potencial econômico. No final do século XX, ganhou novo papel como opção de segunda safra, atraindo produtores interessados na rotação de culturas e no aproveitamento do solo durante o intervalo entre os cultivos de grãos como a soja.
Resistência e versatilidade
O girassol destaca-se entre as oleaginosas por sua alta tolerância à seca, sem perder a capacidade de crescer e formar sementes de qualidade. Essa resistência se deve ao seu sistema radicular profundo, que busca água em camadas mais distantes do solo, e à sua eficiência no aproveitamento da luz solar.
Outra grande vantagem é a adaptação a diferentes tipos de solo, inclusive os mais arenosos, desde que haja boa luminosidade.
Essa versatilidade vem impulsionando seu cultivo em áreas como o cerrado goiano, onde o inverno seco coincide com o ciclo da cultura, favorecendo tanto a colheita quanto a qualidade do óleo. O resultado é um plantio mais seguro, menos vulnerável às variações climáticas e que ainda contribui para a diversificação da produção agrícola.
“É uma cultura que fecha bem o ciclo anual e ainda contribui para a saúde do solo”, explica João Mendes, agrônomo especializado em oleaginosas. Segundo ele, além do valor econômico, o girassol traz benefícios ambientais, atraindo polinizadores e contribuindo para a melhoria do solo com sua grande produção de forragem, o que favorece o manejo sustentável.
Expansão e dados de produção
Segundo a Embrapa, a produção de girassol no Brasil saltou de 44,7 mil toneladas em 2023 para 71 mil toneladas na safra 2024/2025, um aumento de 58,8%. Esses números destacam a rápida expansão da cultura, especialmente em Goiás.
Sua eficácia como cultura de segunda safra tem se mostrado estratégica para o aumento da produtividade, principalmente em áreas de alto potencial agrícola como o cerrado goiano. O bom desempenho é resultado de condições climáticas favoráveis, manejo eficiente e ausência de doenças fúngicas, além da integração com práticas como a apicultura.
Indústria e saúde
Com o crescimento da produção, a indústria de esmagamento de grãos no Centro-Oeste vem se adaptando para processar o girassol e produzir óleo. Foram necessários ajustes em equipamentos e processos, já que o óleo de girassol possui composição e propriedades diferentes das da soja: é mais rico em ácidos graxos insaturados, tem coloração mais clara e sabor mais suave, além de exigir cuidados específicos para preservar sua estabilidade e qualidade (Anderson International).
Especialistas em saúde também destacam os benefícios do óleo de girassol devido à sua composição rica em vitamina E e ácidos graxos essenciais, como ômega-6 e ômega-9.
Segundo a Dra. Marina Zukeran, o óleo “atua como antioxidante, protegendo a saúde cardiovascular, melhorando a função cerebral e podendo auxiliar na prevenção de doenças crônicas, sempre com consumo moderado, como todo óleo vegetal” (Brasil de Fato / Embrapa Territorial).
O exemplo de Junior Queiroz
Na fazenda JQ, localizada na região das Lajes, em Bela Vista de Goiás, o produtor José Queiroz da Silva Junior, conhecido como Junior Queiroz, dedica-se há sete anos ao cultivo de girassol e hoje é reconhecido como o maior produtor da oleaginosa no país.
Conciliar a entrevista não foi simples: Junior estava em plena colheita de girassol e realiza constantes viagens à sua outra fazenda no Tocantins, onde trabalha com gado. A conversa ocorreu por telefone e fax, o que permitiu que ele relatasse sua experiência sem comprometer o ritmo de trabalho.
O que o levou a optar pelo girassol como segunda safra?“Lido com o campo desde que me entendo por gente. Sou agricultor, administrador e técnico agrícola pelo Instituto Agrícola La Salle. Cultivo o girassol por ser uma excelente alternativa na segunda safra. Ele exige menos chuva que o milho e o sorgo, tem preço garantido no mercado e apresenta ótima sanidade, o que reduz custos e torna a produção mais viável.”
Há empresas que compram e industrializam a produção?“O girassol se adapta muito bem ao cerrado por ser resistente à seca. Hoje existem sementes desenvolvidas para esse tipo de ambiente. Além disso, ele contribui para o equilíbrio do solo, fornecendo nutrientes como potássio e boro, além de quebrar a camada compactada, preparando o terreno para o próximo plantio de soja.”
Que mensagem deixa aos agricultores sobre o potencial do girassol?“É uma cultura de menor custo, mais resistente e que gera boa renda, como um ‘décimo terceiro’ antecipado, garantindo recursos para os projetos da lavoura.”
O girassol deixa de ser apenas um cartão-postal rural que colore os campos de amarelo radiante para se consolidar como uma alternativa rentável e estratégica. No olhar de agricultores como Junior Queiroz, fica a certeza de que essa cultura tem ainda muito a florescer no cenário agrícola brasileiro.




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