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Das saudades moitas, Minas Gerais

Imagem de javier alamo por Pixabay

A história das Minas Gerais é uma história marcada pelas migrações e pelos caminhos. Desde as odisseias feitas pelos tropeiros, a construção e grande fluxo de mercadorias e ouro na estrada real - que cortou o nosso estado e ainda hoje é marca da nossa colonização, até os vários fluxos migratórios que Minas Gerais recebeu após a descoberta de ouro e minerais preciosos em nossas terras. No final do século XIX e no começo do século XX, recebemos vários imigrantes europeus, especialmente italianos, mas também árabes, pomeranos e alemães. Ainda hoje, recebemos em nossas terras conhecidas pela hospitalidade e acolhimento aos refugiados de crises diversas, como os haitianos e os warao.


Estou apartado do meu lugar no mundo. Sempre fui desses que dizem que o mundo é a minha casa, ainda digo isso. Acontece que vim parar na Galiza, em Santiago de Compostela. Uma comunidade autônoma localizada no estado espanhol que possui uma identidade e autonomia cultural anterior à chegada dos romanos na Península Ibérica. Na Galiza, fala-se galego, a língua mãe do português. Inclusive, há quem diga, na verdade (um movimento - reintegracionismo galego - crescente aqui e em toda comunidade lusófona) que o galego e o português são uma só língua. O português é uma língua muito pluricêntrica, com variedades muito diversas que compartilham o mesmo status de idioma, e certamente o galego é uma dessas variedades.


Santiago de Compostela é uma das cidades mais populares do mundo por ser o ponto final do caminho de Santiago. Uma rota de peregrinação feita há mais de um milênio até a catedral de Santiago, onde supostamente estão os restos mortais do Santiago - apóstolo de Jesus Cristo. Todos os dias, centenas de peregrinos chegam à cidade, até a Praza do Obradoiro, onde a catedral está localizada.


É lindo ver no contador diário tantas pessoas chegarem à cidade. É emocionante ver os peregrinos chegando e vendo a catedral imponente após caminharem por dias, mais de 200 ou 500 quilômetros a depender do caminho, para chegar até aqui. Fazer o caminho, ou viver em Santiago, é uma experiência transcendente e transformadora, na minha opinião, muito menos por causa da tradição, e muito mais pelo caminho, pela trajetória, pelo meio.


Os muitos caminhos que cruzam a Galiza para chegar a Santiago são também os muitos caminhos que cortam nossas Minas Gerais, e cortam a nós - mineiros e galegos. Os galegos são conhecidos por responderem uma pergunta com outro questionamento, e nós, mineiros, por nossa desconfiança e silêncio, nossa fala rápida, nosso trabalho quieto.


No galego, não houve a monotongação de alguns encontros vocálicos, por isso, ainda se diz moitas para muitas ou escoitas para escutas. Provavelmente trata-se de um arcaísmo linguístico, ou seja, um falar linguístico antigo preservado em uma área isolada. Nossos avós faziam algo semelhante ao dizer “eu me alembro”, enquanto nós diríamos lembro. Os galegos e os mineiros têm preservado, a sua maneira, os diferentes arcaísmos que nos compõem, além da forte presença da influência religiosa católica. As ruas de Ouro Preto lembram muito as ruas daqui de Santiago, assim como a arquitetura das igrejas e as construções em estilo barroco e rococó.


Apesar das proximidades, há um oceano de distância. Apesar de tão bem acolhido, sou estrangeiro em terra do além mar. De noite, meu coração não clama por um fado, nem por um flamenco, ele chama é por um “Quem sabe isso quer dizer amor”, justamente do mineiro Milton Nascimento.


Fiquei surpreso pela falta de autores brasileiros em livrarias aqui na Galiza. Apesar de línguas tão próximas, galego, português e espanhol, continuamos subalternos para os leitores europeus. Achei, com algum custo, três autores brasileiros: Paulo Coelho, Clarice Lispector e Jorge Amado. Tenho profundo apreço pelos dois últimos. Clarice foi genial, sua felicidade clandestina e seu medo da eternidade são meus companheiros de jornada. Jorge Amado mudou minha perspectiva do mundo com seus capitães da areia, e com seu Jubiabá. Mas onde estão todos os outros? Onde está Drummond, com suas coisas findas? Onde está Lygia, com sua ambígua espera? O que dizer de Guimarães Rosa, e sua terceira margem? Seria um sonho ver os galegos lendo Adélia Prado e seu trabalho noturno de limpar os peixes com o marido, ou de Manuel de Barros, com seu quintal maior do que o mundo?


Faço o que posso. Até agora conheci muitos estrangeiros interessados em nossa cultura, língua e país. Que aprendem português, e optam pelo português brasileiro, por acharem mais bonito, por gostarem dos memes, das novelas, da cultura... Até tento não falar muito, mas quando vejo, já estou falando sobre “Grande sertão: veredas” no meio da aula de sociolinguística, expondo como Guimarães Rosa foi genial ao criar uma obra que preza pelos regionalismos e arcaísmos lexicais e sintáticos, pela criação de neologismos, pela primazia da linguagem falada, tão distante da escrita. Como ele foi pioneiro ao abordar a temática de gênero, tão contemporânea, na criação da personagem Diadorim, e nos sentimentos de Riobaldo, tão complexos quanto nossas discussões contemporâneas.


Quando vejo, estou em um café chamado Adélia lendo um poema da Adélia Prado para um amigo italiano, e mostrando a escritora em seu lindo perfil no Instagram. Falando sobre Murilo Rubião, Gregório de Matos, Conceição Evaristo e suas escrevivências ou até mesmo sobre o professor Jacyntho Lins Brandão, atual presidente da nossa Academia Mineira de Letras.


Escrevo esse texto a algumas horas da próxima aula na Universidade de Santiago de Compostela, universidade mais antiga que nosso país enquanto terra invadida por europeus. Escrevo deitado no meu quarto, no norte da Península Ibérica, em uma terra já habitada por celtas, que recebe milhares de peregrinos todos os anos de todo o mundo, cidade que já recebeu figuras emblemáticas como São Francisco de Assis e Santo Agostinho, que igualmente fundaram igrejas aqui - todas essas a poucos passos da minha casa.


Mas estranho mesmo é pensar que meu coração e mente estão nesse momento na praça da Liberdade, onde tanto já andei e até já escrevi, inspirado pela beleza da nossa cidade. A gente voa, conhece o mundo, se encanta pelas diferenças, pela diversidade, pela dádiva da existência... mas sempre ansiamos pela nossa casa, no nosso caso, a raiz em terra de minério, cravada no chão, marcada pela terra. Sou do mundo, sou Minas Gerais.


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