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Da vaidade de Lúcifer ao pecado de Adão: os principais aspectos da antropologia judaico-cristã


“Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás”: essas são algumas das palavras pronunciadas por sacerdotes católicos do mundo inteiro na quarta-feira de cinzas. Nesta data, mais do que um convide à conversão, os cristãos relembram também que a natureza humana é marcada pelo pecado, como causa da queda e da expulsão do paraíso. Para além da crença e do aspecto mitológico, vale a pena nos debruçarmos sobre os textos sagrados para compreender os aspectos filosóficos que compõem toda uma tradição de pensamento, baseada na antropologia judaico-cristã. Então, vamos lá!


Como é largamente sabido, foi a transgressão de Adão e Eva que motivou o banimento do Jardim do Éden. A serpente, que era Satã metamorfoseado, convenceu-lhes a descumprir a única sanção dada por Deus, que os impediu de comerem o fruto da “árvore do conhecimento” (Gn 2,17). Ela assim os disse:


“É que Deus sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, possuindo o conhecimento do que seja bom ou mau” (Gn 3,5).

Tendo comido o fruto do conhecimento, Deus expulsa o casal do paraíso e introduz na experiência terrena o fato irremediável da morte, as penas da dor e o mal, dizendo:

“No suor do teu rosto comerás o pão, até voltares ao solo, pois dele foste tirado. Sim, és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19).

A condição humana passa de um estado de pureza e eternidade, para outro de fraqueza e efemeridade. É aqui que mora a semelhança com a história de Lúcifer, o anjo caído, depois chamado Satã. Ele era o anjo mais próximo do trono celeste, chamado anjo da luz, grande em poder, em privilégio e em proeminência. Toda honra e glória, porém, não lhe bastaram. Lúcifer desejava mais do que lhe era permitido. Sua vaidade o consumia cada vez mais, especialmente ao notar que entre os planos de Deus estava uma criatura tão fraca e insignificante, a qual ganharia o nome de homem e seria dotada de livre-arbítrio. A liberdade, para Lúcifer, era o dom mais caro entre todos, mas considerava que não a possuía por completo, pois era submisso às ordens do Criador. Já o homem, haveria de nascer livre e isso era uma afronta à soberba do anjo governante de muitas legiões celestiais. Lúcifer se insurge contra o decreto irrevogável de Deus, que obrigava a todos os domínios, principados, virtudes e potentados do Céu a se curvarem de joelhos diante d’Ele e do Verbo encarnado. A revolução contra Deus o leva às profundezas da escuridão, juntamente com as legiões de anjos que foram seduzidos por suas venenosas palavras. Mas, nem mesmo o fogo ardente do tártaro foi capaz de consumir a sua vaidade, que assim se manifestou, dizendo:


“De que importa o lugar onde resido, se sou sempre o mesmo e o que devo ser? Aqui, ao menos, seremos livres! Mais vale reinar no inferno do que servir no céu” (MILTON. Paraíso Perdido. 1667).

Ora, assim como Lúcifer, que preferiu ser o senhor do Inferno do que um escravo no Céu, o homem se rebela contra a única ordem que lhe foi dada por Deus: ele come da árvore do conhecimento mesmo sabendo que seu destino seria a morte. Mesmo com tal advertência, o homem preferiu cair num estado de indigência para ser o possuidor do dom dos deuses: o conhecimento do que seja bom ou mau. A raiz dessa desobediência foi a vaidade e a soberba do homem, que não queria tolerar limitação nenhuma, que queria ter o conhecimento do bem e do mal e, portanto, que queria ser como Deus. Não é à toa que o padre demonologista e jesuíta alemão Peter Binsfeld (1545-1598), em sua classificação dos demônios que correspondem à cada um dos sete pecados capitais, associou à figura de Lúcifer o pecado da vaidade.


A serpente, “[…] o mais astuto de todos os animais do campo” (Gn 3,1), é interpretada como o próprio Satã, inimigo dos homens. O diabo seduz Eva e Adão com artimanha, incitando-os à vaidade de se tornarem deuses, por ele ter invejado a natureza primordial do homem, conforme escrito no Livro da Sabedoria:

“Pela inveja do diabo a morte entrou no mundo e a experimentaram os que são do seu partido” (Sb 2,24).

Vale dizer que, assim como o bajulador não alcança seus intentos com quem não está aberto à bajulação, vemos que o personagem adâmico tomou partido às incitações da serpente por sua própria vontade, entregue às fantasias da soberba de tornar-se como os deuses. Não foi simplesmente culpa da tentação da serpente, foi pela própria vontade do homem que o pecado entrou no mundo. Não é à toa que após comerem o “fruto” do bem e do mal, mesmo antes da sentença de morte dada por Deus, o mito fundador bíblico narra que Adão e Eva se envergonharam, tampando seus sexos por causa do aparecimento da concupiscência, escondendo-se no meio das árvores do Jardim. E quando foram interrogados, Adão culpa a mulher e a mulher culpa a serpente. Assim se dá a queda do paraíso e surge o pecado, como escreveu Paulo na Carta aos Romanos:


“Eis porque, assim como por um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado, a morte e assim a morte atingiu todos os homens: aliás todos pecaram...” (Rm 5,12).

Em Adão e Eva houve a inclusão de toda a humanidade no ato mesmo do pecado, como se todos os pecados do mundo estivessem contidos na sua desobediência, como se o personagem adâmico abarcasse um ser coletivo, enunciando uma estrutura fundamental da existência humana ou uma unidade radical do homem.


A natureza corrupta do homem faz com que as tentações e ilusões persigam até mesmo os espíritos mais elevados. A sua natureza pecaminosa impede a todos de subjugarem a concupiscência totalmente. Ao passo que nutrir a crença de que se tem poder para tanto, é retornar à mesma vaidade da queda. Em outras palavras, o homem que se diz dotado dos poderes suficientes para domar os vícios do corpo e da alma comete o mesmo delito da soberba de Adão.

No Novo Testamento, contudo, a concepção acerca do humano ganha uma perspectiva suplementar com a Nova Aliança, afinal a carne, que é o sinal da fragilidade e da transitoriedade da existência, veio a ser habitada pelo logos divino:


“No início era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus. […] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória” (Jo 1,1.14a).

O projeto da criação do homem celestial se conclui em Jesus Cristo. A carne, designada como a totalidade do homem afetada pela fraqueza que vai dar na morte, é superada quando o Verbo divino começou a existir na condição humana, incidindo como momento decisivo da história da salvação dos pecados da humanidade. A carne deixa de ser o sinal do pecado e se torna importante, por isso as tradições filosóficas medievais compreenderam o homem como o composto de corpo e alma. A ideia de que a alma deve se libertar de tudo o que é corpóreo, é superada pela ideia de que a alma deve governar o corpo – pensando aqui a alma racional que governa as vontades, os desejos, as paixões sensuais, os vícios, etc. A partir desse autogoverno, o homem se volta para Deus, que é o Bem Supremo. Em Cristo surge a imagem do homem novo, remodelado à imagem do Verbo encarnado.


É somente através da Graça Divina, portanto, que o homem está totalmente livre dos prejuízos do pecado adâmico, donde dispor-se-ão a virtude verdadeira e a felicidade eterna. A prova de fogo, contudo, é justamente a abertura para o divino: a postura humilde de quem reconhece sua pequenez e batalha contra si mesmo. Trata-se de uma espécie de processo de cura, onde o pobre e necessitado homem depende do sagrado, pois vive uma condição de insuficiência, afinal os seres humanos em sua condição de pecadores são incapazes de fazerem ou mesmo desejarem o bem por seus próprios esforços. Essa é uma prova de fogo porque não basta ao homem apenas as boas obras ou a boa disposição da vontade interna para que se receba os dons da Graça, pois carece ainda da eleição de Deus, que é totalmente gratuita e não depende de qualquer mérito humano. É como escreveu Paulo, na Carta aos Romanos:


“Isso não depende, pois, nem da vontade nem dos esforços do homem, mas da misericórdia de Deus” (Rm 9,16).

O livre arbítrio tem espaço no que diz respeito à fé e à vontade, mas sem entrar num jogo de méritos, afinal os esforços humanos são impotentes para se fazer chegar à salvação. Na verdade, a salvação dos pecados resulta de uma cooperação da Graça e das iniciativas do homem em abolir a escravidão do pecado, mas sublinha-se que essa iniciativa deve comportar a própria Graça:


“isto a fim de desvendar a riqueza da sua glória para com vasos de misericórdia que Ele, de antemão, preparou para a glória” (Rm 9,23).

A luta aqui é contra a vanglória, o orgulho e a soberba que compõem todos os esforços dos filhos de Adão, afinal as intenções das ações humanas são marcadas pela incidência do pecado, na medida em que a mesma mão que ajuda pode estar simplesmente à espera do aplauso alheio – e isso também é vaidade...


Enfim, muitos aspectos acerca da antropologia judaico-cristão e diferentes discussões teológicas poderiam ser exploradas aqui, mas nos detemos nos principais. A intenção foi fazer uma reflexão nesta quarta-feira de cinzas sobre o significado mais profundo deste dia. É certo que entre todas as tradições de pensamento e filosofias, a que mais contribuiu na formação do pensamento ocidental foi essa. Por isso é fundamental entendermos com profundidade sua estrutura, principalmente no que tange à concepção acerca do que é o homem, pois só assim conseguimos dimensionar os diferentes termos da vida humana. É mister que o caminho do autoconhecimento é a chave para o desenvolvimento pessoal e, consequentemente, coletivo. E não há caminho mais certo na estrada do autoconhecimento do que percorrer a tortuosa via que revela nossas imperfeições. Talvez, o que a serpente disse a Eva no ato persuasão esteja, de algum modo, certo:


“O bem que não se conhece, não se possui. E, conhecendo o mal, pode-se evita-lo mais facilmente. Qual seria, enfim, o crime do homem por alcançar tal conhecimento?” (MILTON. Paraíso Perdido. 1667).

Não é crime alcançar tal conhecimento. É crime envaidecer-se dele...


Rafael Penido Vilela Rodrigues

Professor, graduado em História (2015) e em Filosofia (2019), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG, na área de Filosofia Moderna e Contemporânea, com ênfase em Filosofia Luso-Brasileira e Filosofia no Brasil.


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