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Problemas e Políticas de Saúde: registros do médico João Guimarães Rosa

* Por Marco Túlio de Freitas Ribeiro &

Natália Cristina Ruy Carneiro



Esse tema já foi objeto de estudo do médico Eugenio Andrade Goulart, em seu livro” O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa”. Entretanto, o foco de seu livro é o registro de citações feitas por Guimarães Rosa dos doentes e suas patologias, mas por trás de suas descrições, permanece um outro registro ainda pouco explorado, o das políticas de tratamento dos doentes.


Recentemente com a pandemia de COVID 19, os comportamentos e atitudes políticas diante de uma doença com alta letalidade e sem tratamento conhecido, foram discrepantes. Houve uma ambiguidade em termos de política de combate a COVID19. De um lado, cientistas renomados em nossos principais Centros de Pesquisa em Saúde, como Butantã e Fiocruz debruçados em pesquisas de vacinas contra o SARS-COV-2, e do outro um grupo de políticos empenhados em renegar todas as estratégias de controle da pandemia.


As políticas de saúde definem as formas de seu controle. Evidência disso é quando o próprio governo minimiza a pandemia, e diz que “Vão morrer somente alguns velhos”.  Essa declaração pode ser compreendida como expressão de uma política, aliás, de uma necropolítica, como definida pelo filosofo camaronês Achille Mbembe. Ao minimizar a morte de idosos, lhes dão o status do “homo sacer” de Giorgio Agamben, ou seja, seres descartáveis. A negligência é uma política, desumana, mas uma política, ainda que de extermínio.


Os registros de Guimarães Rosa, e os relacionados especialmente a hanseníase ajudam a compreender a evolução das políticas de saúde no Brasil. Dentre as doenças descritas em sua obra, é de interesse especial a hanseníase, pois certamente ele teve alguma atuaçãoprofissional na Colônia Santa Izabel, em Betim, conhecendo de perto  os acometidos por essa doença, sua história e estórias pessoais.


O poema “Reportagem” do livro Magma, no qual Guimarães Rosa descreve a chegada de um doente de hanseníase a estação de Mário Campos, e lembra uma foto antiga que dos registros da Colônia Santa Izabel. Essa foto tinha um vagão de trem, no qual havia a inscrição “Doença Contagiosa “, e nas janelas diversos hansenianos.


Nesse período, a internação era compulsória, e havia uma polícia sanitária responsável por recolher os doentes para os chamados “leprosários”. Essa fase, conhecida pelos profissionais da saúde coletiva como das políticas verticais de saúde, foi um período de marcante exclusão social, pois como não havia antibióticos para tratamento de doenças como hanseníase e tuberculose, e os pacientes psiquiátricos eram tratados com eletroconvulsoterapia.


Nesse contexto, a solução encontrada pela oligarquia foi isolar os doentes em leprosários e sanatórios. Guimarães Rosa no livro “Primeiras Estórias” descreve a partida de duas pacientes para o hospício de Barbacena no conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”. Nesse conto, ele novamente retoma a descrição do trem de ferro como meio usado para recolher os doentes em vagões com grades. Assim patologias infecto contagiosas, e as doenças mentais foram objeto das chamadas “políticas verticais de saúde “.


No Museu da Loucura em Barbacena, um fato chama a atenção. Há um documento da Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais em um quadro, segundo o qual deveriam ser colocados montes de capim entre as camas dos doentes, pois não havia mais leitos.


Além desse documento, os instrumentais usados nas cirurgias de lobotomia são esclarecedores quanto aos procedimentos desenvolvidos na instituição. A reclusão de pacientes era a principal diretriz da política de saúde mental. O Sistema Único de Saúde (SUS), alvo de diversos ataques da mídia e de corporações de saúde privada, tem hoje uma política de humanização da saúde, nesse sentido, avanços na saúde pública do Brasil, devem ser comemorados. A política de humanização do SUS trabalha na perspectiva do cuidado, como descrita por Heidegger em “Ser e Tempo”, e traz em si as ideias de vínculo e responsabilização, diretrizes da Estratégia de Saúde da Família (ESF).


Os registros do médico Guimarães Rosa desse período são importantes não somente pelo seu lado histórico, mas pelo olhar humanizado que o escritor Guimarães Rosa lança sobre os doentes. O mérito dos relatos literários do médico Guimarães Rosa sobre os doentes das três primeiras décadas do século XX é a humanização do cuidado, mediante um olhar que não somente diagnostica e descreve as doenças, mas considera como o “homo” descrito por Heidegger, constituído de matéria e alma.

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