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As lições da tragédia gaúcha: mitigação e adaptação climática


Fotos: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini

A tragédia no Rio Grande do Sul é dramática: até o momento, 163 pessoas morreram, cerca de 80 estão desaparecidas e 647 mil estão desalojadas, vivendo em abrigos, acampamentos ou casas de amigos e parentes. A maior tragédia climática da história da região e uma das maiores do Brasil atinge 2,3 milhões de pessoas em todo o estado. Os números falam por si e revelam a dimensão da tragicidade. Nelson Barbosa, secretário de Planejamento do BNDES, estima que a recuperação do Rio Grande do Sul pode custar entre R$ 70 bilhões e R$ 100 bilhões ao longo de 10 a 15 anos.


Em meio a essa calamidade de grandiosas proporções, há de se extrair lições valiosas. A tragédia climática está nos mostrando, por exemplo, que o binômio mitigação e a adaptação devem ser prioridades inadiáveis. A mitigação e a adaptação representam abordagens complementares no enfrentamento das mudanças climáticas. Enquanto a mitigação concentra-se em reduzir as emissões de gases de efeito estufa e limitar o aquecimento global, a adaptação refere-se a ajustes e estratégias para lidar com os impactos já inevitáveis das mudanças climáticas. Em essência, a mitigação visa a atacar as causas fundamentais do problema, enquanto a adaptação busca encontrar formas de conviver de maneira mais resiliente com os efeitos já em curso.


Implementar mecanismos de mitigação e adaptação climáticas é essencial para lidar com os desastres atuais e prevenir futuras catástrofes. Esta catástrofe deve servir como um grande aprendizado nacional, revelando a necessidade de políticas públicas integradas, eficientes e robustas. Por isso, é necessário planejamento adequado, precisões orçamentárias, políticas públicas baseadas em evidências e investimentos em prevenção - sem isso, o Brasil estará fadado a sofrer cada vez mais com os impactos das mudanças climáticas.


Muito consciente dessa situação, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem destacado a importância de nos prepararmos para a continuidade dos eventos extremos. De forma responsável, ela defende a redução do uso de combustíveis fósseis, o combate permanente ao desmatamento e a preservação da biodiversidade - abordagens mitigadoras. No aspecto adaptativo, o governo federal está concebendo um Plano de Prevenção a Desastres Climáticos, uma iniciativa importantíssima e que prevê repasses de recursos federais para quase 2.000 municípios. Esse plano precisa, verdadeiramente, ser uma prioridade nacional.


A questão financeira é um dos principais obstáculos a serem superados. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) está propondo a implementação de mecanismos econômicos que incentivem os municípios a investirem em medidas de prevenção e adaptação climáticas. Isso é fundamental, visto que a maioria dos recursos disponíveis é direcionada somente em situações de calamidade pública, como observado no caso do Rio Grande do Sul. É imperativo modificar essa abordagem e promover políticas que estimulem a execução de projetos antes mesmo da ocorrência de desastres.


O pesquisador José Marengo, do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), aponta que o Brasil gasta quase três vezes mais para remediar desastres do que investe em prevenção. Entre 2013 e 2023, quase duas mil pessoas morreram devido a eventos extremos, com um prejuízo econômico de R$ 485 bilhões, segundo a Agência FAPESP [2].


A participação dos municípios é essencial, uma vez que são eles os responsáveis pela implementação das políticas públicas formuladas em nível federal. Recentemente, Ana Toni, secretária nacional de Mudança do Clima, ressaltou em entrevista ao Valor Econômico [1] a necessidade de os municípios desenvolverem projetos estruturados, destacando que a ausência desses projetos tem sido um obstáculo ao acesso aos recursos disponíveis.


Outro problema é a falta de continuidade nas obras de prevenção, que frequentemente são iniciadas por uma administração e precisam ser concluídas pela seguinte. Sem um planejamento administrativo de médio prazo e um pensamento sequencial, quase nada de estruturante é realizado.


De volta ao estado gaúcho, sua recuperação requer de todos os atores envolvidos uma abordagem holística, abrangendo tanto a mitigação quanto a adaptação climáticas, com ênfase especial na prevenção. Essa tragédia indica a necessidade de os governos estruturarem estratégias dinâmicas e flexíveis, adaptativas e mitigadoras, que possam responder aos diversos desafios climáticos das diferentes regiões do Brasil. Os últimos eventos extremos vivenciados pelo Brasil, como a seca na Amazônia e as enchentes no Sul, precisam servir como valiosos aprendizados e lembretes da gravidade dos impactos climáticos.


Implementar medidas de mitigação e adaptação climáticas é o caminho essencial para garantir a segurança imediata da humanidade e promover uma via sustentável a longo prazo para nossas comunidades e ecossistemas. Há de se destacar que esta responsabilidade não recai exclusivamente sobre os governos; toda a sociedade precisa se envolver ativamente nesse processo. Isso começa pela reconexão com a natureza e rejeição ao negacionismo. Em um plano mais concreto, que tal iniciar por revitalizar os nossos cursos d'água e arborizar as nossas cidades?



Referências:


[1] Ministério do Meio Ambiente defende incentivos para municípios investirem em adaptação climática. Valor Econômico, 22 maio 2024. Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/05/22/ministerio-do-meio-ambiente-defende-incentivos-para-municipios-investirem-em-adaptacao-climatica.ghtml. Acesso em: 22 maio 2024.


[2] Agência FAPESP. Reconstrução de cidades gaúchas precisa considerar adaptação climática e é alerta para outros municípios. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/reconstrucao-de-cidades-gauchas-precisa-considerar-adaptacao-climatica-e-e-alerta-para-outros-municipios/51743. Acesso em: 23 de maio de 2024.

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