A Fenda Santa das Minas Gerais
- Carlos Eduardo

- 13 de abr.
- 3 min de leitura

O tempo em Minas Gerais rege a vida, as culturas e as tradições de nosso povo. O tempo por completo: cronológico, climático, poético e ritmado. Por todo o Estado, durante a Semana Santa, o tempo deixa de ser estático e se transmuta e oscila entre o presente e o século XVIII. A fenda holística aberta durante esses dias também marca uma mudança no clima. A agitação quotidiana aquecida pelos meses do veraneio repletos da euforia de festas familiares e populares é sutilmente modificada pelo vento frio da noite que começa a ditar o ritmo do outono e essa mudança no clima precede a Semana Santa.
A partir século XVIII, consolidando-se durante o século XIX, as tradições religiosas e para-litúrgicas ligadas à Semana Maior do catolicismo se popularizaram por toda a província, ganhando moldes similares a partir dos centros auríferos para o interior, nos inúmeros povoados e arraiais mineiros. Distantes dos grandes centros, foram nesses pequenos povoados que a Semana Santa se estabeleceu como um grande evento religioso, mas, sobretudo, como um grande espetáculo cultural. O barroco cumpriu seu papel ao levar às ruas a dor, a paixão e o mistério da vida, da morte e da ressurreição.
Milton Nascimento bem traduz esse sentimento quando canta: “e o povo põe de lado a sua dor (...), esquece a sua paixão para viver a do Senhor”. Foi precisamente a associação de sua dor à dor de Cristo que os mineiros do passado e do presente perpetuaram o espetáculo barroquista, intensificando a piedade popular. Novamente, é a fenda aberta. É a realidade cotidiana posta de lado para assistir, fazer e viver a experiência da mineiridade.
A liturgia católica é rezada nas igrejas, mas é nas ruas que a para-liturgia ganha vida. As padiolas enfeitadas conduzem imagens bicentenárias que vestem roupas e têm cabelos. Conduzidas nesses andores, a dor anda junto com o povo, passo a passo. A musicalidade de compositores mineiros setecentistas e oitocentistas, também ganha vida, acorde por acorde entoados por corporações musicais, liras e coros polifônicos.
A sobriedade proposta pelo tempo quaresmal também ganha exceção nessa fenda atemporal. Flores, veludos, brilhos, tochas, velas, toalhas nas janelas, o latim, os tapetes, o mistério e a grandiosidade do espetáculo transportam os viventes para aquele tempo em que o chão de terra batida, o silêncio das minas e obrigação de cuidar, plantar e colher da terra para a subsistência impuseram-se. É fenda que existe como lembrete do que é ser mineiro e de que essa identidade é secular.
Cultura e fé que transcendem ao acolhimento e se interiorizam. As casas são preparadas para receber a visita de familiares e amigos que, mesmo inconscientemente, perceberam e experimentaram dessa essência. Acolhimento afetivo que se materializa na gastronomia familiar. As receitas que a oralidade ensinou são degustadas sobre a mesa. As quitandas saem em fornadas e o café lhes dão a cor do trabalho e da memória.
A Semana Santa em Minas Gerais é sobre a fé para quem tem fé. É sobre cultura para quem é cultural. É sobre a vida para quem vive. É sobre a morte para quem é finito. É sobre vivência para quem experimenta. É um convite para adentrar a essa fenda santa que está espalhada por todo o Estado. Cada cidade, cada bairro, cada comunidade rural para, organiza-se, leva a fé para a rua. Ainda que aqui ou acolá algo possa ser ligeiramente local e identitário, a receita, a gênese e o espetáculo são únicos.
Seja no Triângulo, no Alto Paranaíba, no Noroeste, no Norte, no Jequitinhona/Macuri, no Rio Doce, na Zona da Mata, no Sul, no Centro ou no Centro-oeste, onde quer que alguém passe esses dias santos, tal singularidade só é possível porque a fenda santa do tempo só existe aqui e essa experiência única e estadual só é possível porque aqui é Minas Gerais.




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