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Uai, será que é o trem?


Nosso sotaque e nosso regionalismo nos distinguem há mais tempo do que posso calcular. Inicialmente, suponho, em tom de chacota elitista. Como já mencionou nossa conterrânea Cármem Lúcia, “mineiro rouba a banana do macaco, deixa o macaco satisfeito e devendo favor”. Foi assim que conquistamos e caímos nas boas graças dos brasileiros que passaram a apreciar nosso jeitinho de falar que ganhou nome de idioma: mineirês.


​Ainda que não disputemos com nosso vernáculo, o mineirês se tornou um patrimônio cultural de nosso Estado – pelo menos na legitimação popular. Expressões e palavras marcam esta nossa identidade que ostentamos e com muito orgulho, até porque sabemos o que estamos fazendo. Veja bem: alegam, alguns compatriotas, que, erroneamente, chamamos tudo quanto há de trem. Recentemente, e para corroborar o quanto fazemos bem ostrem, popularizou-se nas redes sociais o que já sabíamos: trem é, de fato, qualquer trem.


​Os teréns que chegavam pelas Marias Fumaças venceram nossas serras, serpentearam nosso cerrado e desembarcaram no nosso mineirês quando, com leve gracejo, dispensamos o seu plural. Como sempre, para nós, é muito compreensível: foram os trilhos e as locomotivas que nos encurtaram distâncias e nos uniram de forma efetiva, pela primeira vez, em mais de um século. O Trem de Ferro mexeu tanto com nossa identidade que uma das origens do nosso uai também está engatado a ele, como se fosse mais um de seus vagões, e impactou a nossa economia, a nossa comunicação e a nossa locomoção.


Estações Ferroviárias foram construídas para nos conectar e se tornaram locais e símbolos de encontros, de despedidas e de progresso. Bem como as memórias que as plataformas perderam com o tempo, a importância desses lugares deteriora-se com os verões. Estações em ruínas, ainda que reconhecidas como Bens Valorados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.


​Memórias e História construídas entre bilheterias eplataformas, entre vagões e dormentes, que foram transportadas pelos mistos e noturnos por mais de um século. Na década de 1930, Getúlio Vargas desfilou sobretrilhos de Minas Gerais na construção de sua imagem como pai da nação, sobre os mesmos dormentes que, anos depois, levaram e trouxeram nossos pracinhas durante a Segunda Guerra Mundial.

Décadas após o fim do grande conflito que mudou os rumos do século XX, o mesmo temor de uma guerra mundial nos propõe uma reflexão sobre os rumos que mudamos acerca dos nossos meios de transporte. A chamada crise dos combustíveis nos desperta uma atenção interiorana para os dormentes que dormem abandonados sobre nosso solo.


​O Brasil tem, em média, 10.000 quilômetros de malha ferroviária inativa. Minas Gerais já operou sobre, aproximadamente, 4.000 quilômetros de ferrovia em contraponto aos quase 2.500 quilômetros ainda operante. Trilhos inativos por decisão.


Nosso país os abandonou, preterindo-os ao conforto e à individualidade dos automóveis e das rodovias que, se pararem para valer, concretizariam o sonho musical de Raul Seixas, ressignificando-o para “o dia em que o Brasil parou”.


​Antes que isso possa acontecer, quem sabe não é hora de ressignificar também o trem? Trilhar o caminho inverso do regionalismo para a materialidade e transformá-lo em patrimônio concreto?


Santos Dumont conquistou o céu, por que não poderíamos voltar a conquistar a terra? Minas tem a faca e o queijo na mão e, também como ditamos popularmente por aqui: quem sabe não é melhor dar um passo pra trás pra dar dois pra frente?

 

11 comentários


Gostei muito. Treim bão sô.

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Thais de Paula
Thais de Paula
29 de abr.

Que maravilha de texto! 👏🏻👏🏻

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Belíssimo texto.

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Que trem xique sô moço. Gostei dimais.

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E a memória está justamente aí, na ponte entre " o trem falado" e " o trem" que já não passa mais! Trilhos que já foram caminhos de chegada e também de partida. Parabéns pelo texto!

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