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Quaresma, tempo de revitalização

Atualizado: 22 de fev. de 2023

Na Quarta-feira de Cinzas, a Igreja Católica (e também outras Igrejas cristãs) iniciam um tempo forte de seu calendário litúrgico, o Tempo da Quaresma. Esse momento marca a preparação para a Páscoa. Recordamos os 40 anos da travessia do povo de Deus pelo deserto rumo à Terra Prometida e os 40 dias da jornada de Cristo enfrentando as tentações no deserto. Na verdade, o número 40 é bastante simbólico na Bíblia, representa a jornada da vida, ou seja, a peregrinação que fazemos até alcançar a nossa Canaã, a nossa Terra Prometida.



Através desse texto, quero chamar atenção para um aspecto importante da Quaresma, pois compreendo esse Tempo como uma oportunidade de revitalizar a vida e o coração. De vez em quando, ouvimos essa palavra – revitalizar – dar vida nova, novos ares... a praça será revitalizada, a rua foi revitalizada. Espaços externos e públicos sempre ganham cara nova depois das revitalizações.


Na Quaresma, Cristo nos convida a fazer uma revitalização interior, dar uma cara nova ao nosso coração, promover uma grande reforma em nós. Nesse sentido, são muito inspiradoras as palavras do profeta Ezequiel, que descreve como será esse processo de revitalização pelo qual Deus nos fará passar: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26).

Nesse processo, Jesus nos ajuda a descobrir o milagre de nós próprios e a vislumbrar a beleza escondida dentro de cada um de nós. Revitalizar é transformar. É passar por mudanças diariamente, só assim chegaremos à Terra Prometida. Ainda que não vejamos ou percebamos, nós nos revitalizamos a cada dia.


Pensando nisso, recordei-me do que escreveu Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”. Esse pensamento também nos ajuda a tomar consciência das mudanças que desejamos fazer em nós. Preocupamo-nos demasiadamente com nosso exterior, e, de fato, é importante cuidarmos de nosso corpo, mas, não podemos nos esquecer de nosso coração, de nossa alma – de nossa interioridade. As grandes mudanças sempre acontecem de dentro para fora.


Não sei por qual metamorfose você passará nessa Quaresma, mas você sabe. Sim. Você sabe o que precisa ser revitalizado dentro de você. Uma atitude, um sentimento, um vício a ser vencido e outras tantas coisas. Só não podemos esquecer que essas metamorfoses acontecem sempre devagar e silenciosamente.


Transformar a nossa maneira de ver e viver a vida, reinventar o modo de nos relacionar com as pessoas, modificar a maneira de cuidar e respeitar da natureza são algumas das revitalizações que devemos ter em mente na Quaresma. Por isso, também nesse tempo, vivenciamos aqui no Brasil, a Campanha da Fraternidade, que nos convida a refletir sobre alguma realidade específica, para a qual necessitamos promover uma revitalização. Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convoca a refletir, rezar e agir sobre o flagelo da fome, que infelizmente ainda atinge milhões de brasileiros.


Sabemos que será árduo o nosso trabalho nesta Quaresma para que cheguemos revitalizados à Páscoa. Interessante que esse processo de revitalização necessite ser refeito todos os anos durante o Tempo da Quaresma – poderíamos dizer também, todos os dias, enquanto fazemos a travessia da vida – sempre há alguma coisa a ser modificada em nós.

Outro grande mestre, Guimarães Rosa, escreveu algo que nos ajuda a aprofundar sobre nossas constantes revitalizações quaresmais e existenciais, tão necessárias para nós. Assim, ele ressaltou em Grande: sertão veredas através de um pensamento filosófico de Riobaldo: “O senhor... mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que estão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra, montão”.


É tempo de nos recolhermos, como a lagarta se recolhe no casulo. Em nossa crisálida, vamos fazendo a nossa longa e silenciosa revitalização interior até concluirmos a nossa metamorfose. Afinando e desafinando, metamorfoseando sempre, afinal, não estamos terminados. E, assim, prosseguimos até que, revitalizados, possamos conquistar a nossa Terra Prometida, a vida nova que Cristo quer nos oferecer.

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