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Ladrão de sanfona


Parece até causo de mineiro, mas é verdade, verdadeira, registrada nos anais da justiça das Minas Gerais.


Também não é historia de pescador que adora aumentar os causos e o tamanho dos peixes, além de se sentir herói, lutando contra as assombrações na beira do rio.


Não.


É caso de Boletim de Ocorrência, vítimas e um sujeito atrás das grades.


Fato é, que o "caboclo" de nome Célio Rodrigues de Menezes, o " Zé do Queijo", resolveu calar as sanfonas!

E não foi porque a festa estava animada e o som estridente, daqueles de incomodar até defunto, perturbar a ordem, não.


Foi pelo viés da boa e velha ganância de quem muito quer e tudo perde. Má fé!


Roubou. Surrupiou. Afanou. Pediu emprestado sem pensamento de devolver o tal instrumento.

Não assinou papel, fez tudo de lábia afiada, como a dos políticos que sabem bem que texto usar para conversar ou convencer o cidadão inocente, que cruza o seu caminho.


Deu dó ver a matéria no Fantástico, exibida no domingo, 2 de outubro de 2023.


Deu dó ver as pessoas idosas desse sertão sem fim, das Minas Gerais, serem passadas para trás.


Roubou mais de sessenta instrumentos. Em mais de trinta cidades de Minas. Um Ladrão sem música, sem coração, com sede de dinheiro.


Inventou mentiras, dizia que levava, e que devolveria. Dizia que era rápido e rasteiro, a conta do irmão, que era tocador ( mentira), e tinha as pernas amputadas ( outra mentira), tocar um pouquinho e matar a vontade de sanfonar a sanfona, que trazia de volta. E nunca mais apareceu.


Povo simples tem bom coração. Povo simples dos grotões das Gerais, tocador de sanfona, chora com o instrumento nos braços.

E chorou viu, mas chorou de ver partir a companheira de vida. Cinquenta, sessenta e tantos anos com ela no braços, suportando seu peso, corpo chegava a envergar, mas sempre juntos colecionando histórias e sorrisos, beijos e abraços e muita satisfação de viver.


Ainda bem que pegaram o desalmado, se não, eram mais órfãos da música, que teriam ficado desconsolados, por essas terras de Minas.


Agora pensa, compadre, vender o instrumento lá no Rio de Janeiro, pra desmontar a bixinha e revender peças originais. Isso é coisa de Capeta!


Comadre, escute bem essa sandice, e abra bem os olhos e ouvidos, não tá fácil viu! Pois alguém que rouba a música esquece que teve pai e mãe, nunca amou, não sabe o que é namorar a lua, rir, sonhar e agradecer a Deus.


Fica esperta e o Sinhô também, Compadre, pois sem dinheiro a gente se vira, mas sem o som da sanfona a gente perde o sentido e só não tomba porque a memória de tudo sanfona no peito e move o coração.


Siga refletindo, eu fico por aqui, divagando no compasso da sanfona.

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