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Por que nos tornamos infrequentes por aqui?



O tempo foi se escasseando tanto e as obrigações profissionais, acadêmicas e familiares se avolumando de tal modo que acabei tendo dificuldades para manter a regularidade dos textos aqui nesta plataforma.

 

Três meses se passaram desde a minha última contribuição para a coluna Magma e tantas coisas aconteceram que pensei: será que o tempo ainda me favorecerá para escrever de novo ao Sagarana Notícias? “Drama de pisciano”, diria o astrólogo. Mas eu que não creio em astrologia sabia que voltaria com esta coluna. Eis-me aqui a digitar, apressado, algumas letras para este site denotado por tonalidades de regionalismo literário, travestido de notícias necessárias, num tempo tão freneticamente hiperbolizado de news, fakes, sensacionalismos e socializações empobrecidas e virtualizadas.

 

Junto comigo (e meu interregno literário), a maior parte de meus colegas de colunas sagaranistas também se tornou infrequente por aqui. Por quê? No início, eram tantos os textos, tanta gente pedindo para ser colunista, para expor as suas visões de mundo na mídia recém-lançada, para dissertar sobre a sociedade itaguarense, sobre a política e a economia da nossa região, para indicar livros, falar de filmes, abordar a história local e regional, ensaiar crônicas e outros gêneros… escrever, divagar livremente feito as andorinhas que sobrevoam a torre da Igreja Matriz (ainda não me acostumei a chamá-la de Santuário, peço escusas ao Dom Miguel por isso).


Hoje, quase um ano desde o “lançamento” deste portal, o fato é que praticamente todos os colaboradores do SN andamos um tanto quanto “cansados", assoberbados com nossas tarefas diárias e/ou até mesmo “desmotivados”.

 

Ouso analisar a nossa infrequência por aqui a partir de quatro hipóteses e um fator externo, que não são excludentes, aliás, são harmonizáveis na explicação das intermitências.


A primeira é bastante óbvia: o novo atrai. A motivação é inerente às novidades. Quando inesperadas, as oportunidades se descortinam, as possibilidades de fazer o diferente tornam-se instigantes. De acordo com neurocientistas, a novidade é capaz de ativar o cérebro cognitivamente, aumentando a qualidade de vida e a sensação de prazer. Mas com o passar do tempo, o novo se torna rotina e aí vem a desmotivação.

 

A segunda hipótese diz respeito ao esgotamento temático. Muita gente não tem muito o que falar. Daí que escrever é realmente uma vocação que exige leitura permanente, contato com a diversidade e ampliação de olhares. Como diria o mais fantástico personagem literário: “Quem lê muito e viaja muito, muito vê e muito sabe”. Cervantes sabia das coisas e usou da voz de Dom Quixote para professar sua sabedoria.

 

A terceira hipótese se refere ao desentusiasmo com relação aos próprios leitores, diante deste tempo cada vez mais fugaz, virtualizado, pouco afeito às literalidades regionais, quase nada interessado nas notícias da nossa terra, estabelecendo vínculos cada vez mais fragilizados com a sociedade e um pertencimento local gradativamente enfraquecido. Perdemos espaço para os streamings, as redes sociais, os games e as fofocas. Uma notícia ou um artigo sobre um assassinato já não é tão novidadeiro, a história e a cultura da cidade ou da região não é mais interessante do que um seriado e uma coluna literária para quê, se posso procurar explicações diretamente no YouTube? Por qual razão devo ler sobre política, economia, direito ou sociedade com um olhar local/regional, se posso ter acesso a tudo isso a partir da TV ou das redes? O possível desinteresse dos leitores para com as mídias locais afeta e desentusiasma os próprios colunistas.

 

Mas há uma quarta hipótese que talvez melhor explique a infrequência de todos nós: a sobrecarga do dia a dia e o consequente cansaço. Nestes tempos, somos reféns das tarefas do dia a dia – a palavra é forte, mas não encontro outra melhor. A analogia é quase perfeita: a rotina nos sequestra, o trabalho nos consome e as obrigações nos oprimem. A consequência é um cansaço tão grande que escrever uma coluna ou atualizar o site com notícias regionais se torna mais um fardo do que um prazer. A propósito, recomendo a leitura do livro "Sociedade do Cansaço", um pequeno ensaio do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han sobre esta enfermidade (excesso de cobrança e positividade) que acomete a sociedade atual.


Aliado às quatro hipóteses há, claro, o fator financeiro. Como somos todos colaboradores, a ausência de remuneração acaba criando um compromisso lânguido com o fazer literário.

 

Por fim, há um fator externo: a crise das mídias locais. Outro dia mesmo, estava lendo um artigo num jornal inglês sobre o acelerado processo de desaparecimento das mídias locais no mundo inteiro. Em vários países, incluindo o nosso próprio Brasil, há cada vez menos jornais locais (impressos ou virtuais), além de sites, rádios e portais de notícias voltados para “um lugar”. Isso carece de uma investigação sociológica e pode nos ajudar a compreender muitas das transformações contemporâneas por que passa a sociedade da hiper informação.

 

O certo é que, mesmo diante dos tantos desafios, o SN resistirá. Porque nosso compromisso é maior. Penso que um colunista de um portal como o SN é, sobretudo, uma pessoa corajosa, amante das letras, de sua terra e da linguagem. Por isso, insistimos neste mister; mesmo sem anunciantes, patrocínios ou mecenas, mas com um propósito firme: trazer textos autorais (culturais, históricos, ensaísticos, literários, livres) de pessoas vinculadas à nossa região e informar a nossa população com notícias efetivamente relevantes, distantes de quaisquer sensacionalismos baratos.

 

Não nos vergaremos nunca diante dos interesses do poder político, econômico ou a força da indústria cultural. Enquanto houver um leitor interessado em nossa região, haverá o Sagarana Notícias a cumprir com a sua missão.

 

Vale compartilhar uma importantíssima informação: em menos de um ano, o SN já alcançou a impressionante marca de mais de 70 mil acessos - há muitos leitores e leitoras assíduos, cidadãs e cidadãos de nossa região que valorizam a mídia regional, se informam por aqui e leem as nossas reflexões, acompanham os nossos colunistas e lêem as nossas notícias. A vocês, agradecemos muitíssimo a generosidade; vocês são a razão da existência do SN.

 

Seguiremos obstinados, inspirados por uma antiga frase imortal de Leon Tolstói, o gênio: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Estamos pintando-a.

 

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