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De que história estamos falando?

É com imensa alegria e gratidão que escrevo este texto, inaugurando nossa coluna sobre História no portal Sagarana Notícias. Antes de começar estas palavras, a primeira coisa que pensei foi: Com o que eu posso contribuir?


Levando em conta a proposta do projeto, de trazer notícias e reflexões sobre a região de Itaguara, Piracema, Crucilândia e municípios vizinhos, pensei em duas linhas de contribuições. A primeira linha, mais direta, é falar sobre a história da região. Como historiador, a questão que sempre me incomodou, desde que comecei a pesquisar a história de Minas Gerais, foi poder aprofundar o que sabemos sobre nosso passado. Afinal, por que certas cidades são “cidades históricas”, estudadas o tempo todo nas aulas de história, e outras não? Será uma honra poder usar este espaço para buscar e falar sobre estudos, fontes, documentos e obras de arte que nos permitam descobrir um pouco mais sobre a história da região.


Isto nos leva à segunda linha de contribuições que creio que possa oferecer nesta coluna. Gostaria de falar um pouco sobre a própria questão: Afinal, o que é a história da região? Indo ainda mais fundo, o que é história? Por que estudamos o passado? Por que definimos que certas coisas “são históricas” e outras não? Por que falamos em “eventos” históricos?


Claro, todas estas perguntas têm diversas respostas. Entretanto, isto não as torna perguntas menos importantes. O importante é justamente que as respostas sejam sólidas, fundamentadas, e que sejam perguntadas o tempo inteiro. O que as pessoas do século XIX consideravam “histórico” não é necessariamente o mesmo que as pessoas do século XX. O que a sociedade brasileira do século XX chamou de “história neutra” não necessariamente será aceito como verdadeiro pelas pessoas do século XXI.


Aqui talvez esteja a primeira resposta a estas perguntas. A história, assim como todas ciências, é baseada no debate e na eterna renovação. Não existem histórias inquestionáveis ou auto-evidentes. Existem histórias que são questionadas e debatidas, e após isto consideradas aceitas, justo porque resistiram à crítica.


O Brasil, assim como quase todos os países que sofreram com a colonização, foi governado majoritariamente por ditaduras através dos anos 1800 e 1900. Nas ditaduras brasileiras, a história quase sempre foi imposta de cima para baixo: pouquíssimas pessoas se reuniam, decidiam o que era a “história oficial”, e ela era ensinada nas escolas. Na sala de aula, a palavra do professor era inquestionável. Os alunos deveriam apenas decorar as datas, os grandes nomes e os hinos da pátria.


Apenas a partir de 1988 o Brasil começou a engatinhar como uma democracia. Também devagar, a história “oficial” brasileira vai se renovando e amadurecendo. Hoje, não se busca mais uma história inquestionável para ser imposta nas salas de aula, mas sim uma história crítica, que seja feita a partir do debate. Que seja escrita levando em conta os pontos de vista da imensa diversidade da sociedade brasileira, incluindo todas suas culturas, classes, e gêneros. E que seja questionada por todos e todas, transformada de acordo com os pontos de vista divergentes, não apenas imposta por militares ou por historiadores vindos de famílias ricas.


Nesta coluna, espero poder não apenas trazer “fatos” históricos, mas sim debater e ter respostas dos colegas e leitores sobre as interpretações que fazemos da história. Deixo claro que também não pretendo falar apenas de história regional, mas também de eventos e fatos históricos que acontecem no nosso dia-a-dia. Afinal, o que acontece em Belo Horizonte, em Brasília, e até do outro lado do mundo nos afeta, e é afetado por como agimos e pensamos no interior de Minas Gerais.


A pandemia da Covid-19 foi um caso claro de como precisamos pensar o global ligado ao regional: o mundo está tão conectado que um vírus contraído de animais nos mercados de carne de Wu Han, literalmente do outro lado do mundo, precisou de apenas alguns meses para chegar a todas as pequenas cidades do interior mineiro. Neste mundo conectado e cheio de informações caóticas (muitas delas falsas ou mal-intencionadas), espero que pensarmos um pouco sobre história possa nos ajudar a ordenar um pouco nosso pensamento.


Segundo a forma como a maioria dos pensadores desde os anos 1930 têm definido, história não é “o estudo do passado”. Não nos dedicamos apenas a estudar o que já passou, nem ignoramos o que acontece no presente. História é a forma de pensarmos toda a sociedade através do tempo, ligando passado e presente. Portanto, é praticamente inútil falar do passado sem ter em mente nosso presente e os futuros que queremos.

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