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Adélia Prado: a potência da simplicidade em versos humanamente profundos

Atualizado: 14 de mar. de 2023

“O que a memória ama fica eterno”. (Adélia Prado)


O título não é muito chamativo, mas não encontrei melhor diante da grandiosidade da simplicidade de Adélia Prado, uma das maiores se não a maior poeta brasileira viva. Conforme mencionei no último artigo, retomarei, pois, a relevância e a genialidade de Adélia e a sua poesia para a literatura contemporânea brasileira.


Foto: Nana Moraes

Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis em 13 de dezembro de 1935 (dia de Santa Luzia, o que explica seu segundo nome), filha de João do Prado Filho, ferroviário, e de Ana Clotilde Correa, dona de casa. Em 1950, após a morte de sua mãe, começou a escrever os seus primeiros versos. Em 1951, ingressou na Escola Normal Mário Casassanta, em Divinópolis, e dois anos depois formou-se normalista/professora. Em 1955, começou a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Melo Viana Sobrinho.


Anos mais tarde, começou a graduação em filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973. Naquela época, já havia escrito o seu primeiro livro ("A Lapinha de Jesus"), publicado em 1969, em coautoria com Lázaro Barreto. Os autores inspiraram-se no presépio do frei Thiago Kamps para escreverem a obra.


Mas foi em 1976 que Adélia tornou-se uma voz potente e reconhecida pela crítica literária nacional. Foi quando a poeta mineira lançou o livro “Bagagem”, considerado por muitos especialistas em literatura como uma das importantes obras femininas do século XX. De professora conhecida apenas nos círculos escolares de Divinópolis, Adélia Prado se tornou voz poética nacional, no mesmo nível que Clarice Lispector, Cecília Meireles e Lygia Fagundes Telles.


Não era para menos, o seu padrinho na poesia era simplesmente o mais genial poeta brasileiro do século: Carlos Drummond de Andrade, mineiro assim como Adélia, entusiasta da elegia do simples em construções poéticas densas, mas legíveis.


Um ano antes da publicação de sua obra seminal, Adélia Prado havia submetido os originais de seus novos poemas ao crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna (1937-), que gostou de imediato, mas entregara a Carlos Drummond de Andrade a fim de uma análise ainda mais minuciosa.



Adélia Prado - reprodução da internet

Drummond ficou impressionado com a qualidade dos poemas da jovem Adélia e enviou os originais para a Editora Imago. Autêntico e original, o estilo da divinopolitana ganhou a crítica desde o início. No lançamento da obra, no Rio de Janeiro, houve a presença de grandes personalidades brasileiras: o padrinho Drummond, claro, ladeado por Affonso Romano de Sant'Anna, Clarice Lispector e até Juscelino Kubitschek, dentre outros.


Adélia nasceu literariamente grande. Gigante.


Dois anos depois da introdução triunfante no mundo da poesia nacional, Adélia publicou "O Coração Disparado", com o qual conquistou o Prêmio Jabuti de Literatura, conferido pela Câmara Brasileira do Livro. No fim dos anos 70, após lecionar por mais de duas décadas, a poeta abandonou o Magistério para se dedicar à carreira de escritora. Em seguida, publicou em prosa: "Solte os Cachorros" (1979) e "Cacos Para Um Vitral" (1980). Desde então, foram mais de uma dezena de publicações. Todas recebidas com aplausos efusivos por leitores e críticos.


Na década de 80, Adélia já se havia se tornado uma das mais notáveis vozes advindas do modernismo brasileiro e a herdeira feminina da poética de Drummond. Ao longo da segunda metade do século XX, a ex-professora mineira de Divinópolis passou a figurar entre as maiores personalidades literárias do país.


Ao longo de toda a sua vida, Adélia notabilizou-se por conseguir transformar em poesia a simplicidade do cotidiano, as dores da existência, os dilemas do dia-a-dia, as lembranças e relembranças de passos que se fazem presentes consistentemente.


Um crítico literário escreveu, certa vez, que a poesia de Adélia é marcada por uma "ingenuidade calculada", isto é, os seus versos tratam de temas densos e complexos com simplicidade e espontaneidade, entretanto, por detrás das aparentes sinalizações ingênuas, há um componente reflexivo que torna sui generis a sua poesia – humana, sensível, genial.

É impossível falar de Adélia sem falar de Minas Gerais. Assim como Drummond, ambos não se afastam de sua terra na abordagem poética da vida, nas suas cosmovisões literárias. Como mulher mineira, a poeta demonstra em todo o conjunto de sua obra como os seus versos se enraízam nas tradições que a cercam, nas vivências em sua terra natal, nas histórias que se permitem versejar.


Adélia, mineira como nós, simples, sensível e humana, como muitos de nós, faz-nos crer que a poesia é tangível e possível também a nós, mortais como ela, ainda que distantes da genialidade de um olhar que só se faz produzir raramente nesta vida.


Desconhecer Adélia não é, definitivamente, algo concebível para quem ama a literatura, a poesia e a mineiridade.


* Alisson Diego Batista Moraes é advogado, bacharel em Filosofia (UFMG), mestre em Ciências Sociais pela PUC-Minas, doutorando em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016. Atualmente, é secretário da Fazenda de Nova Lima-MG. E-mail para contato: alissondiegobatista@yahoo.com.br


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